Eiras G, Alves H, Pereira T. Dermoprotetor, mas pouco- a propósito de um caso de Dermatite de Contato. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2026, 22: esub0583. DOI: 10.31252/RPSO.07.11.2026
DERMOPROTECTIVE, BUT BARELY– REGARDING CONTACT DERMATITIS
TIPO DE ARTIGO: Caso Clínico
Autores: Eiras G(1), Alves H(2), Pereira T(3).
RESUMO
Introdução
A dermatite de contacto é uma condição desencadeada pela exposição a substâncias irritantes e/ou alergénios. Pode ser dividida em dois tipos: dermatite de contacto irritativa e alérgica. A primeira é a dermatite ocupacional mais comum. A segunda implica necessariamente uma sensibilização prévia a um alergénio específico. A abordagem de um caso suspeito engloba a anamnese, exame físico e a realização de testes epicutâneos (gold-standard para o diagnóstico). Quanto ao tratamento, o primeiro passo consiste na identificação e eliminação do contacto do agente causador.
Caso Clínico
Mulher, 40 anos, assistente operacional num hospital periférico há mais de dez anos. Sem antecedentes pessoais relevantes. Iniciou quadro inespecífico de eritema e pápulas pruriginosas nas polpas digitais, que rapidamente progrediam para lesões friáveis e de sangramento fácil. Por persistência dos sintomas, a trabalhadora recorreu a consulta de dermatologia, tendo-se solicitado realização de bateria de testes epicutâneos. Os testes mostraram alergia a metilisotiazolinona, biocida presente no produto de higienização das mãos, utilizado no local de trabalho.
Conclusão
À semelhança de outras doenças profissionais, também aqui o nexo de causalidade é fundamental para se estabelecer um diagnóstico de doença profissional. O caso que aqui se traz, evidencia um exemplo claro de como uma patologia apenas localizada numa pequena região corporal, compromete uma atividade laboral de uma forma global. A bibliografia é consistente quando afirma que profissionais de saúde e funcionários de limpeza, são das profissões com maior risco de desenvolver uma dermatite de contacto ocupacional.
Palavras-Chave: Dermatite Ocupacional, Dermatite ocupacional alérgica, Dermatite ocupacional irritativa, saúde ocupacional, hospital, medicina do trabalho, enfermagem do trabalho, segurança do trabalho.
ABSTRACT
Introduction
Contact dermatitis is a condition triggered by exposure to irritating substances or allergens. It can be divided into two types: irritant contact dermatitis or allergic contact dermatitis. The first is the most common occupational dermatitis. On the other hand, the second one necessarily involves prior sensitization to a specific allergen. The approach to a suspected case involves anamnesis, followed by a physical examination and finally, by performing patch tests (the gold standard for diagnosis). As for treatment, the first step is to identify and eliminate contact with the causative agent.
Case Report
Female, 40 years old, operational assistant in a peripheral hospital for over ten years. No relevant personal history. She started with a nonspecific picture of erythema and pruritic papules on the fingertips, which quickly progressed to friable lesions that bleed easily. Due to persistent symptoms, the worker sought a dermatology consultation and was asked to perform a battery of patch tests. The patch testing showed allergy to methilisothiazolinone. This biocide was present in the hygiene product used by the patient at the workplace, to wash hands.
Conclusion
As with other occupational diseases, the causal link is also essential in establishing a diagnosis of an occupational disease. The case presented here provides a clear example of how a pathology that is only localized to a small area of the body can compromise work activity in a global manner. The literature is consistent in stating that health professionals and cleaning staff are among the professions most at risk of developing occupational contact dermatitis.
Keywords: Occupational Dermatitis, Allergic Occupational Dermatitis, Irritant Occupational Dermatitis, occupational health, hospital, occupational medicine, occupational nursing, workplace safety.
INTRODUÇÃO
A dermatite de contacto é uma condição desencadeada pela exposição a substâncias irritantes ou alergénios externos. Afeta sobretudo as mãos, sendo a principal causa de patologia cutânea ocupacional e origem frequente de incapacidade laboral (1) (2). Pode ser dividida em dois tipos: dermatite de contacto irritativa (DCI) ou alérgica (DCA), não sendo possível de forma inequívoca, clínica e histologicamente, diferenciar as duas (3).
A DCI é a dermatite ocupacional mais comum. É frequentemente encontrada em indivíduos com história de atopia. Não necessita de sensibilização prévia, isto é, a sua forma aguda pode aparecer imediatamente após o primeiro contacto (2) (4). A DCI cumulativa, um subtipo de DCI, ocorre algumas semanas ou até meses após exposição repetida a irritantes fracos como sabões, champôs, detergentes ou ser o resultado da lavagem recorrente das mãos, com quebra da barreira lipofílica cutânea (4) (5). Trata-se, por isso, de uma patologia muito associada a profissões e/ou atividades onde o trabalho húmido seja frequente.
Por outro lado, a DCA implica necessariamente uma sensibilização prévia a um alergénio específico. Posteriormente, aquando de uma nova exposição, surge uma reação eczematosa mediada por linfócitos T de memória (em média, cerca de 48 a 72 horas após o contacto) (6).
A abordagem de um caso suspeito engloba a anamnese, exame físico e a realização dos testes epicutâneos. Na anamnese é importante caracterizar pormenorizadamente a história da doença atual, antecedentes pessoais (como história de atopia ou asma), bem como história familiar e ocupacional (exposição a produtos potenciadores de dermatites ou trabalho húmido). Adicionalmente, o tempo e cronologia das lesões, os sintomas associados e a melhoria ou o agravamento com fármacos poderá clarificar a história. Ao exame físico, há que prestar especial atenção à distribuição das lesões e às características das mesmas: lesões eczematosas e muito pruriginosas nas mãos, cabeça e até um atingimento de forma generalizada, são altamente suspeitas; lesões ao nível dos joelhos, cotovelos, das mãos ou couro cabeludo, em forma de placas secas, avermelhadas com escamas prateadas ou esbranquiçadas, poderão apontar mais para um diagnóstico de psoríase; manchas anulares róseo avermelhadas e placas com bordos ligeiramente elevados poderão apontar para uma tinha corporal; finalmente, pápulas eritematosas e “túneis” nos espaços interdigitais, antebraços e/ou genitais, poderão ser sinónimo de escabiose. (1) (3) (6).
Os testes epicutâneos são o gold-standard para o diagnóstico de DCA, que devem ser realizados sempre que se suspeita de um caso de DCA. Utilizam-se câmaras oclusas onde se aplicam pequenas quantidades de alergénios, posteriormente colocados na parte superior do dorso pelo período habitual de 48 horas. A primeira leitura é programada entre as 48 e as 72 horas e uma segunda leitura entre as 96 horas e os 7 dias. Atualmente a série-padrão do Grupo Português de Estudos das Dermatites de Contacto (GPEDC) é composta por trinta e cinco alergénios, sendo que outras séries complementares poderão ser usadas de acordo com a anamnese, localização e suspeição clínica da etiologia causadora da dermatose (6) (7).
Um dos alergénios presentes na bateria-padrão e na bateria dos cosméticos/conservantes é a metilisotiazolinona (MI) (8) (9). Trata-se de um biocida, conservante muito utilizado pelo seu amplo espectro bactericida, antifúngico e também com ação sobre algas. Existem vários biocidas, alguns testados na bateria padrão (Metilisotiazolinona, metilcloroisotiazolinona, octylisotiazolinona e benzylisotiazolinona), todos com elevado potencial sensibilizante. São atualmente testados separadamente porque nem sempre estabelecem reação cruzada entre si (8). A metilisotiazolinona é o biocida mais utilizado pelos fabricantes porque se pensava ter menor potencial sensibilizante quando comparada com a metilcloroisotiazolinona. Presente em cosméticos, produtos de higiene, detergentes e noutros produtos como ceras, selantes, agentes de preenchimento, entre outros. A atual Diretiva Europeia limita a presença destes biocidas em produtos leave-on (que ficam na pele) mas permite a sua utilização em produtos de higiene (Wash out ou rinse-off) (10).
Quanto ao tratamento, o primeiro passo consiste na identificação e eliminação do contacto do agente causador (1) (3). O tratamento de primeira linha é a corticoterapia (6). Utilizam-se os corticóides tópicos quando há envolvimento de pequenas áreas (os corticoides mais potentes devem ser reservados para localizações de pele mais espessa como mãos ou pés). A corticoterapia sistémica é usada quando a superfície corporal atingida é superior a 20%.
CASO CLÍNICO
Mulher, 40 anos, assistente operacional num hospital periférico há mais de dez anos. Sem antecedentes pessoais relevantes. Nega medicação habitual. Não fumadora. Sem história de atopia.
No início de 2024 iniciou quadro inespecífico de eritema e pápulas pruriginosas nas polpas digitais, que rapidamente progrediam para lesões friáveis e de sangramento fácil. Refere melhoria dos sintomas nos períodos de férias e agravamento em período laboral. Na mesma altura, terá começado a utilizar na higiene das mãos um novo detergente-gel no seu local de trabalho (Figura 1).
Por persistência dos sintomas, a trabalhadora recorreu a consulta de dermatologia, onde realizou testes epicutâneos, incluindo a bateria padrão do GPEDC e a bateria de cosméticos, e conservantes assim como de produtos de uso diário suspeitos.
A leitura dos testes efetuada às 72 horas (Figura 2) revelou alergia de contacto ao Kathon CG (++) e a metilisotiazolinona (+++), presente na composição do detergente dermoprotetor. Foi efetuado teste semiaberto com o gel dermoprotetor, com resposta positiva às 72 horas.
CONCLUSÃO
À semelhança de outras doenças profissionais, também aqui o nexo de causalidade é fundamental para se estabelecer um diagnóstico de doença profissional. Nesse sentido, Maths propôs sete critérios para definição de dermatite de contacto ocupacional: a aparência clínica consistente, a presença de causas suspeitas (irritativas/alérgicas), a distribuição anatómica compatível, a relação temporal adequada, a exclusão de exposições não ocupacionais como causa, a melhoria com o afastamento laboral e finalmente, a demonstração da relevância clínica da positividade do teste. Dos sete critérios, a presença de apenas quatro é necessária para o diagnóstico de dermatite de contacto ocupacional e no caso supracitado estão reunidos praticamente os sete critérios (11).
No âmbito da intervenção em saúde ocupacional, foram propostas e implementadas medidas de proteção coletiva e individual dirigidas à eliminação e controlo da exposição ao agente sensibilizante identificado. Ao nível coletivo, procedeu-se à recomendação de substituição do produto de higienização contendo metilisotiazolinona por alternativas sem este conservante, bem como à notificação e articulação com os serviços de saúde ocupacional e de segurança do trabalho, com vista à avaliação do risco e eventual implementação de medidas preventivas adicionais no local de trabalho.
Ao nível individual, foi determinada a evicção do contacto com o alergénio, a utilização de equipamentos de proteção individual adequados às tarefas desempenhadas, nomeadamente luvas apropriadas, e a adoção de medidas de proteção cutânea, incluindo aplicação regular de emolientes e adequação das práticas de higiene das mãos. Foi ainda assegurado acompanhamento clínico em consulta de Medicina do Trabalho e Dermatologia, com monitorização da evolução clínica e da aptidão para o trabalho.
A implementação destas medidas associou-se a melhoria clínica progressiva, com redução da sintomatologia e ausência de agravamento significativo após reexposição laboral controlada, permitindo a manutenção da atividade profissional. Estes achados reforçam a relevância da identificação precoce do agente etiológico e da intervenção estruturada em saúde ocupacional, integrando medidas organizacionais e individuais, na prevenção da recorrência e na minimização do impacto funcional da dermatite de contacto ocupacional.
Para concluir, o caso que aqui se traz, evidencia um exemplo claro de como uma patologia apenas localizada numa pequena região corporal, compromete uma atividade laboral de uma forma global. Para além disso, o caso da trabalhadora hospitalar aqui retratada, é coerente com a bibliografia existente que refere que profissionais de saúde e funcionários de limpeza, são das profissões com maior risco de desenvolver uma dermatite de contacto ocupacional (12) (13).
Impera assim a necessidade de se criar ambientes mais seguros, onde a saúde ocupacional emerge como uma ferramenta estratégica, capacitando as organizações a colherem os benefícios tangíveis de uma força de trabalho saudável e comprometida.
CONFLITOS DE INTERESSE
Nada a declarar.
QUESTÕES ÉTICAS/LEGAIS
Nada a declarar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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(1)Gonçalo Eiras
Médico Interno de Medicina do Trabalho. MORADA COMPLETA PARA CORRESPONDÊNCIA DOS LEITORES: Serviço de Saúde Ocupacional ULS EDV- Rua Doutor Cândido Pinho, 4520-220 Santa Maria da Feira. E-MAIL: joao.eiras@ulsedv.min-saude.pt
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Participação no seguimento do caso, pesquisa e elaboração de manuscrito
(2)Helena Alves
Médica Interna de Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro. 3810-501 Aveiro. E-MAIL: helenasmalves.13@gmail.com, Nº ORCID 0000-0003-4494-6861
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Participação no seguimento do caso e revisão do manuscrito
(3)Teresa Pereira
Assistente Hospitalar Graduada de Dermatologia na Unidade Local de Saúde de Braga. 4710-243 Braga. E-MAIL: tmmarquespereira@gmail.com
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Participação no seguimento do caso e revisão do manuscrito.








