Horta J, Amaral A, Pereira M, Amorim D, Mota L, Pinto M. Do Desempenho Desportivo à Produtividade Laboral: Suplementação com Creatina em Trabalhadores Fabris. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2026, 21: esub566. DOI: 10.31252/RPSO.23.05.2026
FROM SPORTS PERFORMANCE TO WORK PRODUCTIVITY: CREATINE SUPPLEMENTATION IN FACTORY WORKERS
TIPO DE ARTIGO: Artigo de Revisão/Caso Clínico
Autores: Horta J(1), Amaral A(2), Pereira M(3), Amorim D(4), Mota L(5), Pinto M(6).
RESUMO
Introdução
A creatina monohidratada é um suplemento com eficácia comprovada no aumento da disponibilidade de fosfocreatina e melhoria da performance muscular, sendo potencialmente útil em tarefas laborais repetitivas e exigentes, nas quais a fadiga compromete o desempenho e a segurança. Existem também dados que sugerem efeitos positivos na recuperação e na fadiga central. O presente trabalho apresenta um estudo de caso, enquadrado por uma revisão narrativa da literatura, com o objetivo de discutir a evidência científica disponível e as suas implicações para o contexto laboral.
Metodologia
Foi elaborado um estudo de caso, integrando a apresentação de um caso clínico com uma revisão narrativa da literatura. Foram consultadas as bases PubMed, MEDLINE, Scopus e Web of Science, procedendo-se à análise crítica da evidência disponível sobre suplementação com creatina em contextos laborais.
Descrição do caso
Trabalhador de 35 anos da indústria automóvel, saudável, que executa entre 200 a 300 apertos diários com parafusadora pneumática e outras tarefas repetitivas, em turnos rotativos, incluindo noturnos. Em contexto de exame periódico de Medicina do Trabalho, relatou fadiga muscular progressiva e questionou a segurança da suplementação com creatina para melhorar o desempenho laboral. O exame clínico foi normal e foi considerado “Apto” para o trabalho.
Discussão
A suplementação com creatina entre 3 e 5 gramas por dia melhora a resistência muscular, tolerância ao esforço repetitivo e o desempenho cognitivo, em condições de fadiga ou privação parcial de sono. A evidência aponta para um perfil de segurança favorável em adultos saudáveis. Contudo, faltam estudos aplicados ao ambiente profissional e não existem recomendações específicas em Medicina do Trabalho, pelo que a decisão deve ser individualizada e integrada com medidas ergonómicas e organizacionais.
Conclusão
A creatina apresenta potencial como adjuvante fisiológico para trabalhadores sujeitos a tarefas repetitivas de elevada exigência e curta duração, mas a ausência de ensaios ocupacionais limita recomendações formais. O caso ilustra a necessidade de estudos pragmáticos que avaliem o impacto na fadiga, segurança e produtividade laboral.
PALAVRAS-CHAVE: Suplementação, Creatina, Fadiga muscular, Trabalhadores industriais, Privação de sono, Performance.
ABSTRACT
Introduction
Creatine monohydrate is a well-established supplement known to increase phosphocreatine availability and enhance muscular performance. These effects may be relevant in occupational settings involving repetitive and physically demanding tasks, where fatigue can compromise performance and safety. Evidence also suggests potential benefits in recovery and central fatigue mitigation. The present work presents a case study, framed by a narrative review of the literature, with the aim of discussing the available scientific evidence and its implications for the occupational context.
Methods
A case study was conducted, integrating the presentation of a clinical case with a narrative review of the literature. PubMed, MEDLINE, Scopus and Web of Science databases were searched, and the available evidence on creatine supplementation in occupational settings was critically appraised.
Case description
A 35-year-old male automotive industry worker, previously healthy, performs 200 to 300 daily tightening cycles using a pneumatic screwdriver in addition to other repetitive tasks, under rotating shifts including night work. During a routine occupational health examination, he reported progressive muscular fatigue and sought clarification regarding the safety of creatine supplementation to improve work performance. Clinical examination was unremarkable, and he was deemed fit for duty.
Discussion
Daily creatine supplementation at doses between 3 and 5 grams has been shown to improve muscular endurance, tolerance to repeated efforts and cognitive performance under conditions of fatigue or partial sleep deprivation. Available evidence supports a favorable safety profile in healthy adults. However, no studies have directly evaluated creatine use in occupational environments and no specific recommendations exist in Occupational Medicine. Decision making must therefore be individualized and integrated with ergonomic and organizational preventive measures.
Conclusion
Creatine shows potential as a physiological adjunct for workers performing high frequency, repetitive tasks of short duration, although the absence of occupational trials limits formal recommendations. This case highlights the need for pragmatic studies assessing its impact on fatigue, safety and productivity in real work settings.
KEYWORDS: Supplementation, Creatine, Muscle fatigue, Industrial workers, Sleep deprivation, Performance.
INTRODUÇÃO
A fadiga é um fenómeno multidimensional que abrange componentes musculares, cognitivos e psicossociais, constituindo-se como um fator de risco significativo para lesões, erros operacionais e redução da produtividade no ambiente laboral. Os distúrbios músculo-esqueléticos relacionados com o trabalho continuam a representar uma carga substancial (1) para os trabalhadores e para as empresas. Em paralelo, a fadiga cognitiva, frequentemente agravada por turnos noturnos, trabalho repetitivo ou privação parcial de sono, compromete a atenção, a vigilância e o tempo de reação.
A creatina monohidratada é um suplemento acerca do qual existe evidência científica (2), nomeadamente múltiplas meta-análises que demonstram os seus benefícios a nível neuromuscular (3) (4). A sua ação principal decorre da capacidade de aumentar o armazenamento de fosfocreatina e otimizar a ressíntese de adenosina trifosfato (ATP), fornecendo maior estabilidade energética durante esforços intermitentes de intensidade moderada a elevada.
Além dos efeitos musculares, estudos revelam o impacto favorável na função cognitiva, especialmente em situações de défice energético, envelhecimento ou privação de sono (5) (6) (7). Estas condições apresentam paralelismos relevantes com contextos laborais fabris, pelo que existe plausibilidade teórica para um benefício ocupacional. Apesar disso, a literatura aplicada ao trabalho continua praticamente inexistente, representando uma lacuna crítica em saúde ocupacional.
Neste contexto, o presente trabalho tem como objetivo analisar criticamente a evidência científica disponível sobre a suplementação com creatina monohidratada, enquadrando os seus potenciais efeitos musculares e cognitivos no contexto da atividade laboral, através da descrição de um estudo de caso, discutindo a sua possível aplicabilidade, limitações e implicações práticas.
METODOLOGIA
O presente trabalho adota um desenho descritivo, combinando a apresentação de um trabalhador observado em contexto de exame periódico de Medicina do Trabalho, com posterior revisão narrativa da literatura, realizada com o objetivo de enquadrar criticamente a situação clínica apresentada e discutir a evidência científica relevante para a prática.
A questão orientadora deste trabalho foi: qual a evidência científica disponível sobre os efeitos da suplementação com creatina monohidratada na fadiga muscular e cognitiva, e a sua potencial aplicabilidade em contextos laborais caracterizados por trabalho repetitivo e esforços intermitentes?
Neste sentido, foi realizada uma revisão narrativa sobre o tema, tendo sido consultadas as bases PubMed, MEDLINE, Scopus e Web of Science, com os termos “supplementation”, “creatine”, “muscle fatigue”, “industrial workers”, “sleep deprivation” e “performance”. Incluíram-se revisões sistemáticas, meta-análises, ensaios clínicos randomizados e artigos de revisão publicados até 2025, tendo sido dada maior relevância interpretativa a trabalhos publicados nos últimos dez anos, sem exclusão de referências anteriores consideradas fundamentais. A seleção dos estudos foi baseada numa avaliação crítica do desenho metodológico, hierarquia da evidência e relevância para a extrapolação para contextos laborais, privilegiando documentos com aplicabilidade fisiológica ao ambiente de trabalho.
Com estas opções metodológicas definidas, procedeu-se à revisão crítica da evidência relevante para o contexto laboral.
DESCRIÇÃO DO CASO
Apresenta-se o caso de um trabalhador do sexo masculino, com 35 anos, sem antecedentes pessoais ou familiares com relevância clínica, e sem medicação habitual. Exerce funções numa linha de produção da indústria automóvel, realizando diariamente entre 200 a 300 apertos com parafusadora pneumática. O posto inclui rotação periódica de tarefas, alternando para a atividade de encaixe de portas, que não requer o uso da parafusadora. O horário laboral compreende oito horas diárias, enquadradas em turnos rotativos semanais que incluem períodos de trabalho noturno.
As atividades executadas caracterizam-se por esforços repetitivos dos membros superiores, de natureza intermitente, com pausas de curta duração. O trabalhador referia sensação de fadiga muscular progressiva no final de cada turno, especialmente após sequências prolongadas de apertos. Em exame periódico de Medicina do Trabalho, procurou esclarecimentos sobre a segurança da suplementação diária com creatina monohidratada, com o objetivo de melhorar a capacidade de desempenho no posto e reduzir a fadiga acumulada ao longo do tempo.
O exame objetivo foi normal, sem sinais de patologia músculo-esquelética, metabólica ou neurológica. Após a avaliação clínica, foi emitida Ficha de Aptidão para o Trabalho com o resultado “Apto”. A questão colocada pelo trabalhador motivou a necessidade de reavaliar criticamente a evidência científica disponível sobre o uso de creatina em contexto ocupacional, de forma a suportar uma decisão informada e alinhada com a boa prática em Medicina do Trabalho.
O caso apresentado constitui o ponto de partida para uma revisão da literatura, com o objetivo de discutir os mecanismos fisiológicos, a evidência disponível e as potenciais implicações da suplementação com creatina em contexto ocupacional, de modo a ser dada resposta às necessidades dos trabalhadores.
ENQUADRAMENTO DA EVIDÊNCIA EXISTENTE
Mecanismos fisiológicos
A creatina aumenta de forma significativa a disponibilidade de fosfocreatina no músculo esquelético, permitindo ressintetizar de forma rápida o ATP durante os ciclos repetidos de contração e relaxamento. Este mecanismo, amplamente documentado em múltiplos ensaios clínicos e análises robustas (2) (3) (5), justifica a sua eficácia em esforços de natureza intermitente e submáxima. A elevada frequência de tarefas repetitivas no ambiente fabril, como as descritas no caso apresentado, espelha precisamente o tipo de exigência metabólica onde a creatina tem maior relevância, já que o trabalhador realiza centenas de repetições por turno, um padrão de esforço intermitente que corresponde ao tipo de exigência metabólica no qual o sistema fosfocreatina ATP é mais recrutado.
Paralelamente, a creatina induz aumento de hidratação celular e ativa vias anabólicas como a do Mecanistic Target of Rapamycin (mTOR), podendo ainda modular a resposta inflamatória e reduzir stress oxidativo após trabalho muscular exaustivo (5). Estes efeitos sinérgicos constituem um racional fisiobiológico que ultrapassa a simples ergogenia mecânica, podendo favorecer a recuperação muscular entre séries de trabalho repetitivo ao longo do turno.
No sistema nervoso central, a creatina funciona como reservatório energético neuronal, aumentando a disponibilidade metabólica durante períodos de privação de sono ou tarefas cognitivamente saturantes. Ensaios controlados demonstram melhoria em domínios como memória de trabalho, tempo de reação e processamento mental rápido, especialmente quando os indivíduos se encontram sob maior stress fisiológico ou fadiga induzida por ritmos circadianos irregulares (6) (7). Este aspeto é particularmente pertinente em trabalhadores por turnos, como no caso apresentado.
Efeitos sobre o desempenho muscular
A evidência da ação ergogénica muscular da creatina é das mais consistentes entre suplementos nutricionais, contando com décadas de ensaios que demonstram aumentos de força máxima, potência, capacidade de repetição submáxima e maior resistência à fadiga muscular (2). O efeito é particularmente marcado em tarefas que requerem contrações repetidas de curta duração, padrão comum na operação de ferramentas pneumáticas e montagem manual em linha industrial.
Meta-análises demonstram que a suplementação resulta em ganhos de massa magra e melhor desempenho mesmo em adultos mais velhos (3) (4), reforçando que o efeito não depende exclusivamente de treino de alta intensidade e é aplicável a populações com exigências funcionais mais quotidianas. Outros confirmam estes achados em protocolos variados de exercício, desde esforços explosivos até tarefas de resistência localizada (5).
Extrapolando para o contexto ocupacional, trabalhadores em linhas de montagem, tal como o caso apresentado, submetem os membros superiores a centenas de repetições por turno. A necessidade de recuperação rápida entre ciclos de esforço sugere que qualquer intervenção capaz de acelerar a ressíntese de ATP pode ter impacto prático na manutenção da força e redução da fadiga acumulada. Embora a literatura não tenha avaliado diretamente estes cenários, os mecanismos fisiológicos são sobreponíveis, conferindo plausibilidade ao efeito da creatina na redução de fadiga acumulada.
Fadiga psicológica e função cognitiva
A função cognitiva desempenha um papel crítico ao nível da segurança laboral, sobretudo em tarefas com necessidade de vigilância contínua, sincronização fina de movimentos, tomada de decisão rápida e monitorização de equipamentos. O cérebro representa cerca de 20% do consumo energético do organismo, sendo particularmente sensível a alterações de homeostase energética. Estudos demonstram que a suplementação com creatina melhora a memória de curto prazo, capacidade de processamento e tempo de reação, particularmente em estados de fadiga ou privação parcial de sono (6). Dado que o trabalhador executa turnos rotativos, incluindo noturnos, os efeitos neuroprotetores e de suporte energético cerebral descritos nos estudos podem ser particularmente relevantes para a sua vigilância e tempo de reação.
O ensaio cruzado com placebo conduzido por Rae et al. demonstrou melhorias significativas em tarefas mentais exigentes após suplementação oral (7). Estes resultados sugerem que a creatina pode atenuar défices cognitivos associados a turnos rotativos, desalinhamento circadiano induzido por turnos, cadências de trabalho intensas e necessidade de atenção dividida, fenómenos comuns em setores industriais.
Apesar da variabilidade interindividual da resposta e da persistência de alguma controvérsia sobre a magnitude dos efeitos cognitivos em indivíduos saudáveis (6), a convergência dos dados indica que trabalhadores expostos a stress mental acumulado poderão beneficiar da suplementação com creatina.
Tolerabilidade e segurança
A creatina monohidratada tem um dos perfis de segurança mais bem documentados na literatura de suplementos. Existe evidência clara quanto à ausência de toxicidade renal ou hepática em indivíduos saudáveis, sem comorbilidades (2). Estudos farmacológicos confirmam que não existem alterações clinicamente significativas da função renal com suplementação dentro das doses recomendadas, desde que não exista doença renal prévia (8). Desta forma, suplementação com creatina monohidratada, na dose de 3 a 5 g/dia, melhora a resistência muscular e a tolerância a esforços repetitivos de curta duração, reduzindo a instalação precoce da fadiga (1).
Em termos práticos, existem dois esquemas validados para suplementação com creatina. O protocolo clássico inclui uma fase de carga de aproximadamente 0,3 g/kg/dia durante cinco a sete dias, seguida de uma fase de manutenção de 3 a 5 g/dia, permitindo saturação muscular mais rápida (2) (5) (8). Uma alternativa é a suplementação contínua com 3 a 5 g/dia sem fase de carga, alcançando níveis semelhantes de saturação ao fim de três a quatro semanas, com potencialmente menor incidência de desconforto gastrointestinal (2) (5).
Os efeitos adversos mais comuns incluem desconforto gastrointestinal ligeiro, retenção hídrica intracelular e aumento modesto de peso corporal. Este aumento, embora fisiológico, pode assumir relevância em determinadas atividades ocupacionais que dependam de deslocações rápidas, trabalho em altura ou suportes de carga. A maioria destes efeitos é transitória e minimizável, como já descrito, através de ingestão fracionada da dose e adequado estado de hidratação.
No ambiente laboral devem ser consideradas condições que potencialmente modifiquem o perfil de segurança, por exemplo exposição a calor extremo, que pode exacerbar alterações na regulação hídrica, utilização concomitante de fármacos nefrotóxicos, que pode justificar vigilância mais estreita, e tarefas que impliquem trabalho em altura ou uso de arnês, onde um aumento modesto de massa corporal pode ser relevante para a segurança. Nestes cenários, recomenda-se avaliação prévia individual, vigilância periódica da função renal, quando indicado, e orientação sobre hidratação adequada durante o turno (1) (8).
É neste sentido que, no contexto laboral, a suplementação deve ser acompanhada da exclusão prévia de nefropatia ou fatores de risco renais, do reforço de estratégias de hidratação, da preferência por produtos certificados para evitar contaminação com substâncias não declaradas e, por fim, da revisão periódica em exame de Medicina do Trabalho.
Lacunas da evidência com implicações práticas para o presente caso
No enquadramento do caso apresentado, e à luz da revisão narrativa realizada, constata-se que a literatura específica no âmbito do trabalho permanece extremamente limitada, embora a plausibilidade fisiológica seja elevada. Não foram identificados ensaios clínicos randomizados que envolvam diretamente trabalhadores industriais. Não foram identificados estudos de coorte, ensaios piloto, nem sequer estudos observacionais que avaliem desfechos como redução de erros, fadiga laboral, produtividade ou risco músculo-esquelético.
Esta ausência constitui uma das principais limitações da aplicação da creatina em contexto profissional. As diferenças fundamentais entre exercício estruturado e trabalho real, como carga física variável, pausas irregulares, interferências ambientais, rotatividade de postos, condições térmicas e ritmos circadianos alterados, tornam a extrapolação imperfeita.
Em estudos futuros, a promoção ou oferta de suplementação nutricional por parte do empregador implica considerações éticas e legais. Qualquer intervenção deve ser voluntária, precedida de consentimento informado, e não pode substituir medidas de prevenção coletiva ou equipamentos de proteção individual (EPIs). O médico do trabalho deve assegurar que a decisão é individual, que existe acompanhamento clínico e que a empresa não condiciona emprego ou progressão funcional à aceitação da suplementação. Adicionalmente, a responsabilidade por efeitos adversos deverá estar claramente definida, e políticas internas devem priorizar a segurança e não o rendimento a qualquer custo.
Estas lacunas ganham particular relevância quando analisadas à luz do caso apresentado, no qual a decisão clínica se baseia necessariamente na extrapolação cautelosa de evidência proveniente de outros contextos.
DISCUSSÃO
A literatura demonstra de forma consistente que a creatina aumenta a disponibilidade energética muscular e neuronal, reduz a fadiga e melhora o desempenho em esforços intermitentes, assim como a função cognitiva sob estados de stress fisiológico (2) (3) (4) (6) (7). No estudo de caso apresentado, o trabalhador executa centenas de ciclos repetitivos por turno, com carga muscular localizada nos membros superiores e fadiga progressiva. As condições relatadas sugerem um enquadramento fisiológico no qual a creatina poderá ter utilidade, desde que integrada numa estratégia global de prevenção.
Apesar das diferenças conceptuais entre exercício estruturado e trabalho repetitivo em linha de produção, existe uma sobreposição fisiológica evidente entre ambos, uma vez que muitas tarefas laborais exigem ciclos sucessivos de contrações de curta duração, elevadas cadências de movimento e recuperação energética rápida, características que replicam de forma aproximada os estímulos metabólicos observados em protocolos desportivos de esforço intermitente. Assim, os mecanismos pelos quais a creatina melhora a performance muscular e a tolerância ao esforço, nomeadamente o aumento das reservas intramusculares de fosfocreatina, a melhor ressíntese de ATP e a maior eficiência contrátil (2) (3) (5), são potencialmente transferíveis para contextos ocupacionais que envolvem centenas de repetições por turno, tal como evidenciado no caso apresentado. Acresce que meta análises demonstram ganhos de massa magra e resistência muscular mesmo em indivíduos não atletas (3) (4), reforçando que os benefícios observados na literatura desportiva não dependem de treino intensivo e podem ser relevantes para trabalhadores submetidos a cargas musculares repetitivas e moderadas. Assim, embora a extrapolação não seja linear, a convergência dos mecanismos fisiológicos e dos padrões de exigência funcional, sugere que a creatina poderá constituir um adjuvante plausível para mitigar fadiga acumulada em determinados ambientes industriais.
Ainda assim, a ausência de estudos específicos em ambiente fabril impede recomendações universais. A implementação de suplementação por iniciativa do empregador levanta ainda questões éticas e legais, incluindo consentimento informado, voluntariedade, vigilância e responsabilidade partilhada.
As lacunas evidenciadas sublinham a necessidade urgente de investigação aplicada, que inclua marcadores objetivos e subjetivos de fadiga, capacidade de execução em tarefas padronizadas de linha de montagem, desempenho cognitivo sob fadiga e turnos noturnos e efeitos acumulados ao longo de ciclos laborais prolongados.
A creatina revela-se, assim, realmente promissora, mas necessita de validação rigorosa em cenários reais de trabalho.
Reflexões e considerações práticas
Na ausência de evidência específica em contexto ocupacional, e com base na extrapolação cautelosa da literatura disponível e no estudo de caso apresentado, podem ser consideradas as seguintes reflexões práticas para a atuação do médico do trabalho:
- Avaliar individualmente a elegibilidade para suplementação, excluindo doença renal prévia e avaliando medicação concomitante.
- Se a suplementação for considerada adequada, ponderar um regime de manutenção de 3 a 5 g/dia, preferindo evitar fase de carga em contexto ocupacional, para reduzir efeitos gastrointestinais.
- Reforçar a importância de orientação sobre hidratação, registo de efeitos adversos e vigilância periódica da função renal quando existam fatores de risco.
- Priorizar medidas ergonómicas, pausas programadas e programas de melhoria do condicionamento físico, utilizando a suplementação apenas como adjuvante.
- Documentar consentimento informado e manter transparência com a entidade empregadora sobre voluntariedade, em caso de início de suplementação em toda a população trabalhadora.
CONCLUSÃO
A creatina é um suplemento seguro e eficaz para aumento de força e redução da fadiga muscular (2), apresentando ainda evidência promissora em domínios cognitivos, particularmente em condições de fadiga ou stress fisiológico (6) (7). A sua utilização em trabalhadores fabris possui plausibilidade fisiológica e potencial benefício na mitigação da fadiga muscular e psicológica, embora permaneça sem validação empírica em ambiente laboral.
A adoção desta estratégia em saúde ocupacional deve ser sempre individualizada, sustentada por avaliação médica e integrada com medidas não farmacológicas essenciais, como ergonomia, pausas estruturadas, condicionamento físico e gestão adequada de turnos.
Torna-se prioritário o desenvolvimento de estudos pragmáticos em contexto real de trabalho, capazes de avaliar desfechos relevantes como segurança, produtividade, fadiga e erros operacionais, de forma a estabelecer recomendações claras e cientificamente fundamentadas para o uso de suplementação com creatina no ambiente laboral.
CONFLITOS DE INTERESSE
Os autores declaram não ter qualquer conflito de interesse.
QUESTÕES ÉTICAS E/OU LEGAIS
Nada a declarar.
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(1)João Horta
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde Viseu Dão-Lafões. Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Especialização em Medicina Desportiva pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Morada completa para correspondência dos leitores: Serviço de Saúde Ocupacional, Unidade Local de Saúde de Viseu Dão-Lafões, E.P.E, Av. Rei D. Duarte, 3504-509 Viseu. E-mail: joaohortafmuc@gmail.com. Nº ORCID: 0000-0001-6074-8123
-Contribuição para o artigo: Autor principal do artigo, realização da pesquisa bibliográfica e da redação do artigo.
(2)Ana Amaral
Diretora do Serviço de Saúde Ocupacional da ULS Viseu Dão-Lafões. Médica especialista em Medicina do Trabalho e Imunohemoterapia. Competência em Avaliação do Dano na pessoa. Competência em Gestão dos Serviços de Saúde. Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. 3504-509 Viseu. E-mail: anapalmiraamaral@gmail.com. Nº ORCID: 0000-0002-2661-3601
-Contribuição para o artigo: Coautoria. Revisão do manuscrito.
(3)Miguel Pereira
Assistente Hospitalar no Serviço de Saúde Ocupacional da Unidade Local de Saúde Viseu Dão-Lafões. Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. 3504-509 Viseu. E-mail: miguel.pereira.9666@ulsvdl.min-saude.pt. Nº ORCID: 0000-0002-3994-0468
-Contribuição para o artigo: Coautoria. Revisão do manuscrito.
(4)Daniel Amorim
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde Viseu Dão-Lafões. Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior. 3500-643 Viseu. E-mail: daniel.amorim.9078@ulsvdl.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2645-2454
-Contribuição para o artigo: Coautoria. Revisão do manuscrito.
(5)Luís Mota
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde Viseu Dão-Lafões. Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. 4430-117 Vila Nova de Gaia. E-mail: luistxmota@hotmail.com. Nº ORCID: 0000-0003-1162-6271
-Contribuição para o artigo: Coautoria. Revisão do manuscrito.
(6)Manuel Pinto
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde Viseu Dão-Lafões. Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. 4710-413 Braga. E-mail para correspondência dos leitores: cpinto.manuel@gmail.com. Nº ORCID: 0000-0003-0931-1449
-Contribuição para o artigo: Coautoria. Revisão do manuscrito.








