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Estatuto editorial

Validação Portuguesa da Ferramenta de Rastreio de Síndroma Metabólica (ESF-1)

4 Junho, 2026Artigos Originais

Costa D, Oliveira B. Validação Portuguesa da Ferramenta de Rastreio de Síndroma Metabólica (ESF-1). Revista portuguesa de Saúde Ocupacional Online. 2026; 21, esub596. DOI: 10.31252/RPSO.06.06.2025

 

PORTUGUESE VALIDATION OF THE SCREENING TOOL OF METABOLIC SYNDROME (ESF-1)

 

Tipo de artigo: Artigo Original

Autor:  Costa D(1),Oliveira B(2)

RESUMO

Introdução e objetivos

Rastrear a síndrome metabólica é uma necessidade urgente. O Encuesta de Identificación de Sujetos Metabólicamente Comprometidos en Fase-I (ESF-1) é uma ferramenta desenhada para o seu rastreio, mas que não se encontra validada para a população portuguesa. O presente trabalho teve como objetivo aplicá-la a uma amostra de conveniência, após tradução para a língua portuguesa. O objetivo principal é validar o questionário, aplicando-o em contexto ocupacional. Os objetivos secundários são: 1) Avaliar a prevalência de síndrome metabólica nesse grupo de trabalhadores, de acordo com o consenso harmonizado; 2) Avaliar a prevalência de cada um dos cinco critérios/fatores de risco isolados de síndrome metabólica na amostra (hipertrigliceridemia, hipertensão arterial, hiperglicemia/resistência à insulina, perímetro de cintura aumentado ou colesterol HDL baixo) bem como analisar a relação entre as variáveis relevantes para o tema; 3) Definir o ponto de corte de SM com esta ferramenta, em contexto ocupacional português; 4) Comparar os pontos de corte mais sensíveis de cada marcador, comparando com os valores de referência conhecidos; 5) Desenvolver uma versão resumida do questionário.

Metodologia

Trata-se de um Estudo transversal, baseado num questionário online aplicado a uma amostra não probabilística de conveniência, em contexto ocupacional, entre fevereiro e junho de 2023. O questionário continha os parâmetros necessários para classificar o trabalhador como tendo ou não síndrome metabólica (pela definição harmonizada), bem como as questões do ESF-1, recentemente traduzido para português. Utilizou-se estatística descritiva para a prevalência dos critérios isolados de síndrome metabólica (colesterol HDL baixo, hipertrigliceridemia, hipertensão, obesidade central e alteração da glicemia), e calculados novos biomarcadores, nomeadamente o rácio triglicerídeos/colesterol HDL e o índice triglicerídeos-glucose, bem como a área abaixo da curva ROC (AUC-ROC), procurando o ponto de corte ideal para a ferramenta. Foram determinados os Odds Ratio e intervalos de confiança a 95%, bem como a AUC-ROC para determinar o poder preditivo de cada critério. Por regressão logística, criou-se uma versão resumida do questionário, procurando manter a Sensibilidade e Especificidade do original.

Resultados e discussão

Em 380 questionários, consideraram-se 88 analisáveis (53% homens, 46% com ensino secundário completo e 25% com ensino superior, 19% fumadores). Obteve-se uma prevalência de síndrome metabólica de 17% nesta amostra. Isoladamente, observou-se que 49% da amostra possuía um perímetro de cintura aumentado, 44% hipertensão arterial, 22% colesterol HDL baixo, 16% hipertrigliceridemia, e 15% uma glicemia em jejum ≥ 100 mg/dL. O ponto de corte mais adequado da ferramenta foi seis, com uma Sensibilidade de 93.3% e Especificidade 75.3%. A versão resumida possui o mesmo ponto de corte, com Sensibilidade de 93.3% e Especificidade 86.3%.

Conclusão

Validar um questionário de rastreio contribui para orientações acessíveis e práticas, uma vez que esta ferramenta poderá ser aplicada em contexto clínico e/ou comunitário, sendo particularmente útil quando o instrumento possui uma sensibilidade elevada. Isso é crucial para a saúde pública, facilitando a identificação precoce de indivíduos em risco. Apesar dos benefícios, um questionário de rastreio não substitui uma consulta de diagnóstico.

PALAVRAS-CHAVE: Síndrome Metabólica, Validação ESF-1, Rastreio, Saúde Ocupacional, Enfermagem do Trabalho, Medicina do Trabalho.

 

ABSTRACT

Introduction and objectives: Screening for metabolic syndrome is an urgent need. The Encuesta de Identificación de Sujetos Metabólicamente Comprometidos en Fase-I (ESF-1) is a tool designed for this purpose, but it has not yet been validated for the Portuguese population. The present study aims to apply it to a convenient sample after translation into Portuguese. The primary objective is to validate the questionnaire by applying it in an occupational setting. The secondary objectives are: 1) To assess the prevalence of metabolic syndrome in this group of workers, according to the harmonized consensus; 2) To evaluate the prevalence of each of the five individual metabolic syndrome criteria/risk factors in the sample (hypertriglyceridemia, hypertension, hyperglycemia/insulin resistance, increased waist circumference, or low HDL-c), as well as to analyze the relationship between relevant variables; 3) To define the metabolic syndrome cut-off point using this tool in a Portuguese occupational context; 4) To compare the most sensitive cut-off points for each marker with established reference values; 5) To develop a shortened version of the questionnaire.

Methods: Cross-sectional study based on an online questionnaire applied to a non-probabilistic convenience sample in an occupational setting between February and June 2023. The questionnaire included the parameters required to classify workers as having or not having metabolic syndrome (according to the harmonized definition), as well as the ESF-1 questions, recently translated into Portuguese. Descriptive statistics were used to assess the prevalence of individual metabolic syndrome criteria (low high-density lipoprotein cholesterol – HDL-c-, hypertriglyceridemia, hypertension, central obesity, and impaired glycemia). Additional biomarkers were calculated, namely the triglyceride/HDL-c ratio and the triglyceride-glucose index, as well as the area under the ROC curve, to determine the optimal cut-off point for the tool. Odds ratios and 95% confidence intervals were determined, along with AUC-ROC to assess the predictive power of each criterion. A shortened version of the questionnaire was developed using logistic regression, aiming to maintain the sensitivity and specificity of the original.

Results and discussion: Of 380 questionnaires, 88 were considered valid for analysis (53% male, 46% with completed secondary education and 25% with higher education, 19% smokers). A metabolic syndrome prevalence of 17% was found in this sample. Individually, 49% of participants had increased waist circumference, 44% hypertension, 22% low HDL-c, 16% hypertriglyceridemia, and 15% fasting glucose ≥ 100 mg/dL. The most appropriate cut-off point for the tool was six, with a sensitivity of 93.3% and specificity of 75.3%. The shortened version retained the same cut-off point, with a sensitivity of 93.3% and specificity of 86.3%.

Conclusion: Validating a screening questionnaire contributes to accessible and practical tools, as this method may be applied in clinical and/or community settings, being particularly useful when it has high sensitivity. This is crucial for public health, facilitating early identification of at-risk individuals. Despite its benefits, a screening questionnaire does not replace a diagnostic consultation.

KEYWORDS: Metabolic Syndrome, ESF-1 Validation, Screening, Occupational Health, Occupational Nursing, Occupational Medicine.

 

INTRODUÇÃO

A Síndrome Metabólica (SM) representa um cluster de alterações, consequência de um continuum de resistência à insulina (RI) e inflamação crónica de baixo grau. Apesar das definições de SM variarem ligeiramente (1) (2), incluem globalmente critérios como uma alteração do metabolismo da glicose (hiperglicemia, hiperinsulinemia ou resistência à insulina: RI); alteração antropométrica (perímetro abdominal aumentado, ou índice de massa corporal (IMC) superior a 30 kg/m2), alteração do perfil lipídico (hipertrigliceridemia e/ou redução da lipoproteína de alta densidade (c-HDL) e hipertensão arterial (HTA) definida por valores iguais ou superiores a 130/85 milímetros de Mercúrio (mmHg) de sistólica/diastólica. A SM representa uma condição progressiva, iniciando por fatores limite e/ou isolados, que eventualmente progridem para fatores de risco agrupados. Na população portuguesa, estima-se uma prevalência de 33.4% (3), segundo a definição harmonizada. Todos os critérios de SM são também fatores de risco independentes, associados à disfunção endotelial, aterosclerose e hipercoagulabilidade, resultando num aumento do risco de várias patologias, nomeadamente esteatose hepática não alcoólica, cardiovasculares (DCV) ou metabólicas (alguns estudos referem que metade dos indivíduos com SM podem evoluir para Diabetes Mellitus tipo 2 num período de oito anos) (2). Tendo em vista que a RI se desenvolve previamente ao surgimento das patologias associadas, a sua identificação precoce representa um papel preventivo ideal. Existe, à data, aplicado em contexto de Cuidados de Saúde Primários, um questionário de rastreio da DM2 (4). O rastreio de SM objetiva um maior foco na prevenção, num estádio prévio à DM2 propriamente dita. Pelos desafios inerentes de nem sempre existirem parâmetros bioquímicos recentes disponíveis, ou face às limitações de rastrear grandes populações, verifica-se uma tendência para o recurso a técnicas simples e custo-efetivas, como exemplo dos questionários de aplicação rápida. As vantagens prendem-se com a facilidade de administração, o tempo relativamente curto, a dispensa de colheita de sangue e/ou menores custos associados. Existem já vários questionários de rastreio de SM, embora nenhum seja ainda utilizado em Portugal. Em 2019, foi desenvolvido e validado o questionário “Encuesta de Identificación de Sujetos Metabólicamente Comprometidos en Fase-I” (ESF-1), para rastreio numa população mexicana, construído com 15 questões dicotómicas de “Sim” e Não”, cujo ponto de corte para SM foram sete respostas positivas. A Sensibilidade e a Especificidade para a classificação Harmonizada de SM, foram, respetivamente, 72.8% e 83.2%, e uma concordância moderada entre a classificação do ESF-1 e a SM (κ = 0.554; p < 0.001) (5). Tendo em conta a grande aplicabilidade da ferramenta, esta foi traduzida para a língua portuguesa em 2023 (6), sendo o objetivo deste trabalho validá-la em contexto ocupacional.

Objetivos: O objetivo principal é validar um questionário de rastreio de SM traduzido recentemente para a língua portuguesa, aplicando-o em contexto ocupacional. Os objetivos secundários são:

1) Avaliar a prevalência de SM nesse grupo de trabalhadores, de acordo com o consenso harmonizado;

2) Avaliar a prevalência de cada um dos cinco fatores de risco isolados de SM na amostra (hipertrigliceridemia, hipertensão arterial, hiperglicemia/RI, perímetro de cintura aumentado ou c-HDL baixo) bem como analisar a relação entre as variáveis relevantes para o tema;

3) Definir o ponto de corte de SM com esta ferramenta, em contexto ocupacional português;

4) Averiguar os pontos de corte mais sensíveis de cada marcador, comparando com os valores de referência conhecidos;

5) Desenvolver uma versão resumida do questionário, procurando manter uma sensibilidade semelhante ao original.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal, baseado num questionário aplicado a uma amostra não probabilística de conveniência, em contexto ocupacional, entre fevereiro e junho de 2023, enviado a uma população local de aproximadamente 380 potenciais participantes.

  • Critérios de inclusão: adultos, com idades compreendidas entre os 18 e os 68 anos, com o mínimo de escolaridade do quarto ano, que voluntariamente aceitassem preencher o questionário;
  • Critérios de exclusão: preenchimento do questionário com dados incompletos.

O instrumento desenvolvido era de aplicação direta, em formato online (Google Forms), dividido em três partes:

  • A primeira, correspondente a um consentimento informado de participação e tratamento de dados (a assinalar previamente ao preenchimento, sendo explicados os objetivos e procedimentos do estudo, bem como questões éticas e/ou legais).
  • A segunda, referente a questões sociodemográficas (idade, sexo, escolaridade e profissão), parâmetros bioquímicos dos últimos oito meses (triglicerídeos, colesterol c-HDL e glicemia em jejum, todos em mg/dL), parâmetros antropométricos (peso corporal, altura, perímetro da cintura e perímetro da anca) e ainda valores de pressão arterial sistólica e diastólica;
  • A terceira, inclui as 15 questões da ferramenta ESF-1, recentemente traduzida para português (6).

Os valores antropométricos foram avaliados pela investigadora em contexto de exame médico de saúde ocupacional, de acordo com metodologia reconhecida internacionalmente, cumprindo as normas da Direção Geral da Saúde (7). O peso e a altura foram medidos numa balança de craveira JOFRE, verificada por uma entidade certificada para o efeito. O IMC foi calculado através do peso/altura2. O perímetro da cintura foi medido com uma fita métrica, segundo o protocolo de antropometria em adultos da Direção Geral da Saúde. A pressão arterial foi medida seguindo métodos padronizados com equipamentos verificados há menos de doze meses. Estes valores eram periodicamente enviados aos trabalhadores após cada exame médico, pelo que o questionário online requeria o preenchimento desse valor, tendo sido sempre validados pelo responsável da recolha de dados. Os doseamentos bioquímicos requeridos foram considerados dos últimos oito meses, de acordo com as metodologias laboratoriais validadas e em vigor, através de análises requisitadas por rotina pelo médico assistente e/ou do trabalho. Os valores antropométricos e analíticos foram necessários para classificar o trabalhador como apresentando ou não SM, conforme a versão harmonizada (8), selecionada neste artigo por representar uma abordagem mais conservadora (ou seja, se possuírem três dos cinco fatores de risco), nomeadamente:

  • Glicemia em jejum ≥ 100 mg/dL (ou medicado/a para);
  • c-HDL ≤ 40 mg/dL em Homens ou ≤ 50 mg/dL em Mulheres;
  • Pressão arterial sistólica ≥ 130 mmHg ou diastólica ≥85 mmHg (ou medicado/a para hipertensão);
  • Triglicerídeos séricos em jejum ≥ 150 mg/dL;
  • Perímetro da cintura aumentado conforme pontos de corte nacionais/regionais, neste caso em europeus, 94 cm para homens e 80 cm para mulheres).

Análise estatística: Os dados foram analisados com recurso ao software IBM SPSS Statistics (SPSS), versão 27 para Windows. A estatística descritiva consistiu no cálculo de média ± Desvio-Padrão (DP) para as variáveis contínuas, e medianas ou frequências para as categóricas, conforme o aplicável. Foi testada a normalidade das variáveis contínuas através dos coeficientes de assimetria e de curtose, considerando distribuição normal se apresentassem concomitantemente os valores compreendidos entre -1 e +1. Para comparações entre grupos utilizou-se o teste t de Student ou o teste U de Mann-Whitney, conforme aplicável. Para análise da ferramenta global (15 questões), procedeu-se à Area-Under-the-Receiver-Operating Characteristic curve (AUC/ROC), bem como foi calculado o índice de Youden (Sensibilidade + Especificidade-1) e um índice de Youden modificado que visava focar mais na Sensibilidade (Ya = 2xSensibilidade + Específicidade-1), e o seu valor mais elevado foi considerado o valor ótimo para a variável. O coeficiente de concordância Kappa de Cohen (κ) foi determinado para avaliar o nível de concordância entre variáveis categóricas nominais (nomeadamente entre ESF-1 e SM, ou entre os critérios isolados de SM). As correlações foram analisadas de acordo com o valor de correlação de Pearson ou Spearman, conforme aplicável. Foram também traçadas curvas ROC para as variáveis contínuas, e a area under the curve (AUC), de forma a avaliar o valor preditivo em SM de cada uma, incluindo os Odds Ratio (OR) e os intervalos de confiança (IC) a 95%. Por fim, realizou-se uma regressão logística com recuo passo a passo, removendo progressivamente variáveis, procurando criar um modelo reduzido do questionário que possuísse um poder preditivo semelhante ao questionário original, mais de preenchimento mais rápido. Os valores de significância (p) obtidos foram considerados significativos quando p<0.05.

RESULTADOS

Foram inicialmente enviados 380 emails com pedido de colaboração para preenchimento do questionário internamente numa empresa no norte do País. Retornaram preenchidos 107 questionários (taxa de resposta: 28.1%). Dos 107 preenchidos, 18 (16.8%) foram excluídos por terem respondido de forma incompleta ou por não possuírem valores de análises bioquímicas séricas recentes. Deste modo, foram incluídos para análise 88 indivíduos, 53% homens (n=47), com uma idade média de 48.1 ± 9.9 anos (mínimo 24 e máximo 68). Em relação à escolaridade, 45.5% (n=40) possuía o Ensino Secundário completo e 25% (n=22) o Ensino Superior. Nesta amostra classificou-se a profissão de acordo com a componente física, entre 92.0% (n=81) “Menor carga física” e 8.0% (n=7) “Maior carga física”. Neste caso, um trabalhador com “Menor carga física” desempenhava funções essencialmente administrativas. Dos 88, 19.3% (n=17) eram fumadores (Tabela 1).

Do ponto de vista antropométrico, a amostra possuía um peso corporal médio de 74.1±12.7 (52-108) kg (81.5 ± 11.5 nos homens e 65.6 ± 7.7 nas mulheres), altura 170 ± 8.1 (152-186) cm (175 ± 6.5 nos homens e 165 ± 6.1 nas mulheres), IMC médio de 25.6 ± 4.0 (18.0-40.2) kg/m2 (26.6 ± 4.0 nos homens e 24.3 ± 3.5 nas mulheres). Aproximadamente 48.9% (n=43) possuía um perímetro da cintura aumentado (42.6% dos homens, 56.1% das mulheres); 59.1% (n=52) possuíam um rácio cintura:anca superior aos limites para o seu sexo (78.7% dos homens ≥0.90, e 39.0% das mulheres ≥0.85). O rácio cintura:altura era superior a 0.5 em 60.2% (n=53) da amostra (68.1% nos homens e 51.2% nas mulheres). As diferenças foram significativas entre sexos em todos os parâmetros, com exceção dos triglicerídeos, perímetro da anca e idade. Do ponto de vista das análises bioquímicas, a amostra possuía um c-HDL médio de 52,4 ± 12 mg (47,3 ± 9.4 nos Homens e 58,2 ± 12.7 nas Mulheres), 111 ± 55 mg/dL de triglicerídeos, e um rácio Tg/c-HDL de 2.32 ± 1.50 (2.73 ± 1.82 nos homens e 1.83 ± 0.82 nas mulheres), glicemia em jejum de 90.4 ± 11 mg/dL (94,4 ± 11.9 mg/dL nos homens e 86 ± 8.2 mg/dL nas mulheres). Valores completos podem ser consultados nas Tabelas 2 e 3.

De acordo com os critérios da definição harmonizada de SM, observou-se nesta amostra uma prevalência de SM de 17.0% (n=15). Iniciando pela comparação com o ponto de corte do estudo original para a ferramenta ESF-1, observou-se uma concordância fraca (Kappa de Cohen), mas significativa entre uma pontuação igual ou superior a 7 e SM (κ=0.451; p<0.001). No entanto, por análise dos valores possíveis mais elevados de Sensibilidade e a Especificidade (índice de Youden), observou-se que o ponto de corte mais adequado para a ferramenta nesta amostra seria 6 (índice de Youden=0.687) em vez de 7 (índice de Youden=0.595). A Sensibilidade da ferramenta em rastrear SM com o ponto de corte de 6 era 93.3% e Especificidade 75.3%, com uma concordância também fraca, mas superior à anterior (κ=0.474; p<0.001). Ainda, observou-se que quem apresentava uma pontuação igual ou superior a 6 apresentava um risco 43 vezes superior em apresentar SM, face a quem obtinha uma pontuação inferior (OR=42.8; IC95% [5.25-348]). Assim, no questionário completo e traduzido, definiu-se que uma pontuação superior a 6 indica risco aumentado de SM (Tabela 4).

Tendo em conta os cinco critérios isolados de SM, esta amostra apresentava, por ordem decrescente, uma prevalência global de perímetro de cintura aumentado face aos pontos de corte nacionais de 48.9% (n=43), HTA em 44.3% (n=39); c-HDL baixo em 21.6% (n=19), hipertrigliceridemia em 15.9% (n=14), e glicemia em jejum ≥ 100 mg/dl (ou medicado para) de 14.8% (n=13). Foram traçadas as curvas ROC para as variáveis contínuas, e a área abaixo da curva (AUC), de forma a avaliar a capacidade preditiva para SM de cada uma isoladamente, sendo também determinado o Odds Ratio (OR) para cada, e os intervalos de confiança (IC) a 95%. A avaliação dos OR revelou uma hierarquia clara, na qual o perímetro de cintura aumentado emergiu como o preditor mais forte, com um risco em apresentar SM 21 vezes superior (OR=21.2), sublinhando a importância crítica da obesidade abdominal. Na amostra original avaliada em Porchia et al (5), o ponto de corte para a ferramenta foi 7. Na presente amostra, possuir uma pontuação igual ou superior a 7 apresentou um risco elevado de SM (OR=15.5), mas mais elevado caso a pontuação fosse 6 ou superior (OR=42.8), seguidos do rácio cintura:altura ≥ 0.5 (OR=12.2), HTA (OR=11.8), IMC ≥ 25 kg/m2 (OR=6.07), e do rácio cintura:anca acima do limite recomendado para o sexo (OR=5.7). Ter mais de 40 anos de idade associou-se também a um risco 26% superior em apresentar SM (OR=1.26). Este conjunto de dados (Figuras 1 e 2, em anexo) ilustra a complexidade da interligação entre os fatores de risco para a SM, destacando o papel crítico da sua avaliação. A análise do coeficiente de Kappa de Cohen para cada marcador permitiu observar concordâncias fracas, mas significativas com a SM, como exemplo da HTA (k=0.312; p<0.001) e perímetro de cintura aumentado (k=0.308; p<0.001), seguidas do IMC, rácio cintura:altura, rácio cintura:anca, cravings entre as refeições por doces/sal, presença de Acantosis Nigricans, rácio cintura:altura e idade igual ou superior a 40 anos (ver Tabela 4).

Para cada uma das variáveis numéricas, procurou-se também compreender qual o ponto de corte com a maior Sensibilidade possível em rastrear SM, comparando com os valores de referência já conhecidos. Para tal, foi calculado o índice de Youden e um índice de Youden modificado (construído com o objetivo de maximizar a Sensibilidade e potencialmente fornecer valores mais conservadores para atuar ao nível de prevenção). Na sua generalidade, os valores mais sensíveis identificados para cada marcador eram próximos dos definidos pelos valores de referência conhecidos, com exceção dos triglicerídeos, glicemia e IMC, que nesta amostra revelaram ser inferiores (Tabela 5). Os valores foram estratificados por sexo, podendo denotar ligeiras diferenças. De destaque, os valores glicémicos mais sensíveis para SM da glicemia em jejum, em homens eram 108.5mg/dL (Youden) ou 89.5 mg/dL (Youden modificado) face a 100 mg do valor de referência; nas mulheres o valor era 92.5 e 84.5 mg/dL, respetivamente. Os valores para os homens foram ligeiramente superiores ao valor de referência para o Youden clássico, mas muito próximos do valor mais sensível seguinte, que era 100.5 mg/dL, o que poderá estar relacionado com o tamanho da amostra. De acordo com o índice de Youden, os valores mais sensíveis para a pontuação ESF-1 mantiveram o ponto de corte de 6 para ambos os sexos para rastrear SM (Tabela 5).

Foram também calculados rácios entre alguns biomarcadores, que serão discutidos posteriormente, face à sua importância na abordagem de componentes da SM:

  • Rácio “Triglicerídeos/c-HDL” (Tg/c-HDL);
  • Índice “Triglicerídeos-glicose” (TyG = ln [(Tg x glicemia/2)])

Aqui, os valores médios para o rácio Tg/c-HDL foram 2.73±1.82 para os homens e 1.83±0.82 para mulheres (diferença significativa entre sexos) e o índice TyG 8.51±0.54 para homens e 8.30±0.43 nas mulheres (sem diferenças significativas entre sexos). O valor deste marcador com maior capacidade preditiva de SM, foi, respetivamente, apresentar um rácio Tg/c-HDL de 2.82 nos homens e 2.37 em mulheres, ou um índice TyG de 8.85 (Youden) ou 8.68 (Youden modificado) nos homens e 8.13 nas mulheres (Tabela 5).

Foram traçadas as curvas ROC e determinada a área abaixo da curva (AUC), para avaliar o valor preditivo entre os marcadores numéricos e SM, observando-se que os rácios anteriores calculados (Tg/c-HDL e TyG) apresentavam a maior capacidade preditiva de todos eles, seguidamente à pontuação obtida no questionário (ESF-1). Por ordem decrescente de AUC, obteve-se a pontuação ESF-1 (AUC= 0.880; p<0.001), Triglicerídeos/c-HDL (AUC=0.870; p<0.001), TyG (AUC=0.853; p<0.001), glicemia em jejum (AUC=0.824; p<0.001), c-HDL (AUC=0.817; p<0.001), rácio cintura:altura (AUC=0.812; p<0.001), perímetro da cintura aumentado (AUC=0.811; p<0.001), IMC (AUC=0.810; p<0.001), triglicerídeos em jejum (AUC=0.797; p<0.002);  peso corporal (AUC =0.788; p<0.001), rácio cintura:anca aumentado (AUC=0.747; p=0.003) e  perímetro da anca (AUC=0.677, p<0.032) (Ver Figura 2, Tabela 6 e Gráfico 1. Curva de ROC, em anexo).

Observaram-se algumas correlações de destaque entre os marcadores bioquímicos e a antropométricos:

  • Valores mais elevados de triglicerídeos séricos em jejum estavam significativamente associados a maiores valores de perímetro da cintura (rs=0.412; p<0.001), rácio cintura:altura (rs=0.474; p<0.001) e IMC (rs=0.415; p<0.001), e também a níveis inferiores de c-HDL (rs=-0.249; p=0.019).
  • Valores mais elevados de glicemia em jejum estavam significativamente associados a maiores valores de perímetro da cintura (rs=0.382; p<0.001), cintura:altura (rs=0.338; p=0.001), rácio cintura:anca (rs=0.399; p<0.001), Tg/c-HDL (rs=0.353; p=0.001) e índice Tyg (rs=0.438; p<0.001), e também a níveis inferiores de c-HDL (rs=-0.324; p=0.002).
  • Valores mais elevados do rácio Triglicerídeos/c-HDL estavam significativamente associados a maiores valores de IMC (rs=0.535; p<0.001), perímetro da cintura (rs=0.535; p<0.001) e rácio cintura:altura (rs=0.595; p<0.001), e também a níveis inferiores de c-HDL (rs=-0.625; p<0.001).
  • Da mesma forma, também o índice TyG se correlacionou positivamente com o IMC (rs=0.456; p<0.001), perímetro da cintura (R=0.506; p<0.001) e rácio cintura:altura (rs=0.515; p<0.001), e a níveis inferiores de c-HDL (rs=-0.277; p=0.009) (Dados completos na Tabela 7).

Por fim, realizou-se uma regressão logística com recuo passo a passo, removendo progressivamente variáveis que não tivessem um efeito significativo. A qualidade de cada modelo foi avaliada através da análise do R2 de Nagelkerke. Nesta análise, observou-se que quatro das variáveis do modelo original ESF-1 possuíam um coeficiente negativo no cálculo (sonolência após as refeições; perda ou ganho de peso igual ou superior a 10 kg; o auto-relato de sintomatologia específica para mulheres ou homens, e o auto-relato de fome ou sede constante). Essas questões poderiam também suscitar dúvidas na interpretação individual, ou a perda ou ganho de peso não estar clarificada se era intencional ou não. A questão sobre ingerir mais de 300 g de hidratos de carbono diariamente não tinha um efeito significativo, o que pode ser um reflexo da dificuldade de avaliação, tendo exigido sempre um ponto de apoio por parte do investigador. Desta forma, estudaram-se modelos que não incluíssem essas variáveis. Seguiu-se a análise de uma nova curva ROC e pontos de corte, objetivando criar uma versão resumida do questionário, que mantivesse uma Sensibilidade semelhante ao original. Deste modo, o modelo mais adequado incluía oito parâmetros (doravante designado modelo ESF-1r):

1) História familiar de DM2 – se sim, atribuir 1 ponto;

2) Idade igual ou superior a 40 anos – 1 ponto;

3) IMC igual ou superior a 25 kg/m2 –1 ponto;

4) Perímetro da cintura aumentado para o sexo –2 pontos;

5) Razão cintura: anca aumentada para o sexo –1 ponto;

6) Presença de Acantosis Nigricans –3 pontos;

7) Cravings por doces/sal entre as refeições –1 ponto;

8) Tensões arteriais elevadas ou medicado para tal –2 pontos.

Neste modelo, o total máximo possível seriam 12 pontos, mas mediante diferentes ponderações conforme descrito em cada questão. Após análise da curva ROC, obteve-se um ponto de corte para rastreio de SM de 6, uma Sensibilidade de 93.3% e Especificidade de 86.3% (Ver Gráfico 1: Curva de ROC), com uma capacidade preditiva superior para SM, ao analisar a AUC=0.936 (IC95%: [0.885-0.987]; p<0.001), sendo também um valor superior ao questionário original de Porchia (AUC=0.880; IC95%: [0.807-0.953]; p<0.001) (5). Neste novo modelo, a concordância entre a pontuação obtida (≥6) e SM era já moderada (κ=0.643; p< 0.001), com um risco em apresentar SM 88 vezes superior (OR=88.2; IC95% [10.4-746.4]).

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

O presente estudo objetivou validar um questionário de rastreio de SM numa amostra de conveniência portuguesa, em adultos num contexto ocupacional. Assim, observou-se uma prevalência de SM de 17.0% (de acordo com a definição harmonizada), um valor inferior ao estudo de Alves et al em Portugal (33.4%) (3). Tal poderá dever-se ao facto de a amostra possuir trabalhadores com maior escolaridade ou serem fisicamente mais ativos (inferindo pela profissão de “maior carga física”), embora os dados de atividade física não tenham sido avaliados. De facto, reconhece-se que um baixo nível de escolaridade se associa a uma maior prevalência de SM (3); na amostra de Alves et al, 33% tinha completado o 2º ou 3º ciclo do ensino básico, e apenas 17% o ensino superior, comparativamente à amostra deste estudo com, respetivamente, 9% e 39%. Pode também ter ocorrido um viés de seleção para indivíduos com maior atenção ao seu estado de saúde e com maior acesso a cuidados, uma vez que ocorreu num departamento de saúde ocupacional com modalidade interna. Por outro lado, o estudo de Alves et al incluiu adultos dos 18 aos 74 anos, e nesta amostra, por ser laboral, incluiu trabalhadores dos 18 aos 68. Neste caso, reconhece-se que a prevalência da SM é progressivamente maior à medida que aumenta a idade dos indivíduos, derivadas do envelhecimento e da contínua exposição a vários outros fatores de risco que contribuem para a SM (3). Estes motivos podem ter contribuído para as diferenças observadas na prevalência.

Relativamente à SM identificada nesta amostra, os seus dois componentes mais prevalentes foram o perímetro da cintura aumentado (48.9% da amostra) e HTA (44.3%), similarmente aos achados de Alves et al (3). Em ambos os estudos (o presente e o de Alves et al), foi optado por um ponto de corte mais conservador, regional/nacional para o perímetro da cintura, sendo desta forma uma forma de atuar melhor na prevenção. Reconhece-se atualmente que mais de 50% dos adultos portugueses têm obesidade abdominal (9), valores congruentes com o encontrado nesta amostra (~ 49%). sendo preocupante a informação de que aproximadamente 60% da amostra apresentava os rácio cintura:altura e cintura:anca aumentados (Tabela 3), conhecidos marcadores de piores desfechos metabólicos (10). De facto, o rácio cintura:altura pode ser uma ferramenta de rastreio global mais útil do que o perímetro de cintura isolado, apoiando a mensagem simples de saúde pública em “manter o perímetro da cintura a menos de metade da altura” (10). Este rácio possui um poder preditivo superior ao perímetro da cintura e o IMC para desfechos como DM2 e doença cardiovascular, tanto em homens como mulheres (11).

Nesta amostra, o perímetro da cintura aumentado foi um marcador mais sensível para a SM do que o IMC. O IMC, em alguns estudos, apesar de possuir um valor preditivo negativo elevado para SM (91.1%) (12), pode não representar um marcador fidedigno para uma ótima saúde metabólica. Numa análise a 20 430 adultos publicada no Journal of the American Medical Association, 36% dos indivíduos possuía obesidade segundo a classificação de um IMC igual ou superior a 30 kg/m2, mas analisando de acordo com a percentagem total de massa gorda, 74% eram obesos; e em adultos normoponderais, pela mesma metodologia, já se classificavam como obesos 44% dos brancos não-hispânicos, 27% dos negros não hispânicos, 49% dos hispânicos e 49% dos índios (13). Apesar das divergências, a vigilância do aumento progressivo do IMC ao longo dos anos de trabalho pode eventualmente também servir como informação útil para o desenvolvimento de SM (14). Reconhece-se também que dois em cada três adultos portugueses têm excesso de peso (15) (16).

Sobre os rácios e índices bioquímicos calculados, foi possível observar que o rácio Triglicerídeos/c-HDL e o índice TyG foram os marcadores bioquímicos com a maior capacidade preditiva para SM, comparando com as AUC de todos os marcadores isolados (Ver tabela 6). Os valores com sensibilidade máxima em prever SM na amostra analisada foi de 2.82 para homens e 2.37 para mulheres para o rácio Triglicerídeos/c-HDL, e, para o índice TyG foi de 8.85 ou 8.68 para homens, e 8.13 para mulheres. Várias fontes enfatizam a importância destes indicadores como fatores de risco para condições relacionadas com SM (como DM2, aterosclerose ou DCV). Cordero et al indicaram, já em 2008, que um rácio Triglicerídeos/c-HDL ≥ 2,75 indicava resistência à insulina (17). Num estudo que analisou 118 adultos saudáveis normoponderais não diabéticos, valores de Triglicerídeos/c-HDL ≥ 3.0 correlacionaram-se positivamente com resistência à insulina, HOMA-IR ou hiperinsulinemia (18), bem como TyG ≥ 8.65 (19). De acordo com a coorte Panasonic, o rácio Triglicerídeos/c-HDL ≥ 2.1 associou-se positivamente ao desenvolvimento de DM2, num período de 10 anos. Este marcador foi mais sensível para avaliar o risco metabólico, do que analisar o c-LDL, c-HDL ou os triglicerídeos de forma isolada (20). Além disso, vários estudos já associam um Triglicerídeos/c-HDL ≥ 3,2-3.8 à  presença de LDL pequenas e densas, mais aterogénicas, associadas a piores desfechos metabólicos (21) (22) (23).

Num estudo, valores do índice TyG ≥ 8.3 foram o marcador mais sensível para SM, pela análise da AUC  (24). Por fim, num estudo transversal em 525 adultos, o valor de corte para SM do índice TyG foi 8.8 em homens e 8.7 em mulheres (Sensibilidade=79%; Especificidade=86%), bem como um rácio Triglicerídeos/c-HDL de 2.4 (Sensibilidade=88%; Especificidade=72%): 3.1 para homens e 2.2 para mulheres (25).

A simplicidade destes marcadores apontam-nos como uma alternativa possível quando os valores de HOMA-IR não se encontram disponíveis (19). De facto, assumindo que na prática nem sempre os valores de HOMA-IR estão disponíveis, alguns autores observaram o índice TyG como o marcador mais preditivo de SM, comparativamente aos triglicerídeos, dislipidemia aterogénica (c-LDL denso), glicemia e até HOMA-IR (26).

De uma forma global, a ferramenta ESF-1 traduzida permite uma aplicação prática e célere em contexto comunitário ou clínico, em formato presencial ou por meios virtuais. Neste estudo, todos os dados antropométricos foram previamente avaliados em exame médico pela investigadora (e enviados ao trabalhador por correio eletrónico, que os tendo disponíveis os utilizava para o preenchimento do questionário); desta forma na prossecução do estudo conseguiu-se garantir que os dados fossem recolhidos de acordo com as recomendações oficiais, enrobustecendo a validação do questionário. Levantaram-se dúvidas sobre os dados antropométricos poderem ser ou não fidedignos a nível de questionário por telefone/questionário online, como exemplo do perímetro de cintura. No entanto, numa tese recente observou-se que fornecendo aos indivíduos instruções claras e adequadas para assegurar a sua medição, não parece existir diferença entre os valores auto-reportados e os medidos em contexto clínico (27). O questionário completo original com 15 questões apresenta como limitações a necessidade de esclarecimento do que significa ingerir 300g de hidratos de carbono; por outro lado, a maioria das pessoas não está familiarizada com a designação de Acantosis Nigricans, o que sugere que esta deve associar-se a uma imagem ou explicação por parte do investigador no momento da recolha de dados. A versão resumida do questionário (ESF-1r) já não possui estas questões.

A versão completa do ESF-1 (15 questões) foi preditiva para a SM, com uma AUC de 0.880 (p<0.001 IC95%: 0.807-0.953), um valor ligeiramente superior ao estudo original de Porchia (AUC=0.841, IC95%: 0.790 – 0.892; p<0.001) (5). A versão resumida apresentou valores preditivos superiores (AUC=0.936; IC95%: 0.885-0.987; p<0.001). Desta forma, ambas poderão ser utilizadas a nível de rastreio, tendo a versão original ESF-1 uma Sensibilidade de 93.3% e Especificidade de 75.3%, comparando com o estudo de Porchia et al, (5), sendo 72.8% e 83.2%, respetivamente. Já a versão resumida apresentava valores de 93.3% e 86.3%, respetivamente.

Este estudo apresenta limitações. Sendo um estudo transversal, não permite estabelecer relações de causalidade, apenas associações. Pode ter ocorrido um viés de seleção, onde os participantes incluídos podem não representar adequadamente a população geral, uma vez que se reportam a uma amostra com maior escolaridade e acesso a cuidados de saúde, incluindo a um departamento de saúde ocupacional com serviços de modalidade interna, com maior proximidade utente-profissional, não existindo garantias que a maior prevalência de resposta dos participantes não tenha sido de quem se sentia mais acompanhado pelo departamento, e quis contribuir no estudo. Uma vez que os estudos transversais capturam dados num único momento no tempo, podem não considerar as mudanças ao longo deste, o que é especialmente relevante em condições ou doenças que evoluem ou mudam. Por outro lado, os resultados podem não ser generalizáveis a outros contextos, como em crianças, idosos, ou indivíduos com patologias específicas. Esta situação enfatiza a necessidade de estudos adicionais com amostras maiores e noutras realidades, para uma validação mais robusta.

Como vantagens, este estudo contribui para criar ferramentas de avaliação mais acessíveis e práticas. Isso é crucial para a saúde pública, pois facilita a identificação precoce de indivíduos em risco, permitindo intervenções mais eficazes e personalizadas, especialmente quando nos deparamos com ferramentas com sensibilidade elevada. Apesar dos benefícios, reitera-se que um questionário de rastreio não substitui uma consulta de diagnóstico.

Os questionários ESF-1 e ESF-1 resumido encontram-se fornecidos nas Figuras 3 e 4.

CONCLUSÃO

A presente versão portuguesa, traduzida do questionário “Encuesta de Identificación de Sujetos Metabólicamente Comprometidos en Fase-I, pode ser relevante no contexto da saúde ocupacional, cuidados de saúde primários ou na comunidade (em formato presencial ou vias digitais). Tendo em consideração que a SM é o principal precursor de várias doenças crónicas não transmissíveis, espera-se que a utilização deste instrumento permita a identificação precoce de uma população em risco, e uma intervenção atempada e otimizada, de forma a minimizar a evolução e/ou deterioração do quadro clínico destes indivíduos. O ponto de corte para rastrear a SM em ambos os questionários é de 6, tendo em consideração que a pontuação máxima do ESF-1 são 15 pontos, e no ESF-1 resumido 12 pontos. Em anexo partilham-se os dois questionários. Seria interessante a sua validação em diferentes realidades. A replicação da metodologia utilizada permitirá atuar em contextos diferentes e, quando o número de trabalhos assim o permitir, definir estratégias de âmbito mais alargados.

QUESTÕES ÉTICAS E/OU LEGAIS.

Os autores declaram não haver qualquer tipo de conflitos de interesse de ordem pessoal, comercial, política ou financeira. A aplicação do questionário foi efetuada após validação da Comissão de Ética da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) nº 117/2022/CEFCNAUP, da Gestão de Topo da empresa e do Consentimento informado dos participantes, tendo sido seguidas as recomendações éticas constantes da Declaração de Helsínquia.

AGRADECIMENTOS
Um agradecimento especial aos participantes deste estudo e aos autores originais do questionário, que gentilmente concordaram em fornecê-lo para tradução e validação.

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ANEXOS

Tabela 1. Caracterização sociodemográfica da amostra (n=88)

Categoria Subcategoria n (%)
Sexo Masculino 47 (53.4)
Feminino 41 (46.6)
Escolaridade 2º ciclo (5º e 6º ano) 4 (4.5)
3º Ciclo (7º ao 9º ano) 5 (5.7)
Secundário (10º ao 12º ano) 40 (45.5)
Superior (Licenciatura) 22 (25.0)
Superior (Mestrado, Doutoramento) 17 (19.3)
Profissão Não-produtivo/Administrativo 81 (92.0)
Produtivo/Físico 7 (8.0)
Fumadores Sim 17 (19.3)
Não 71 (80.7)

 

Tabela 2. Distribuição das caraterísticas analíticas e medições antropométricas da amostra (n=88)

Parâmetro Total (n=88) Homens (n=47) Mulheres (n=41)
μ DP Mín Máx μ DP Mín Máx μ DP Mín Máx Dif (p)
Peso (kg) 74.1 12.7 52.0 108.0 81.5 11.5 60.0 108 65.6 7.7 52.0 81.0 <0.001t
Altura (cm) 170 8.1 152 186 175 6.5 160 186 165 6.1 152 177 <0.001t
P. anca (cm) 99.6 8.0 77 120 100.1 8.25 80 120 98.9 7.8 77 117 0.506t
c-HDL (mg/dl) 52.4 12 32 82 47.3 9.4 32 74 58.2 12.7 32 82 <0.001t
Tg (mg/dl) 111 55 43 376 119.7 65.2 47 376 102 39.3 43 201 0.282MW
Glicemia (mg/dl) 90.4 11 64 129 94.4 11.9 64 129 86 8.2 66 109 <0.001MW
Idade (anos) 48.1 9.9 24 68 49.7 9.2 30 68 46.2 10.6 24 64 0.097t
IMC (kg/m2) 25.6 4.0 17.9 40.2 26.6 4.0 20.2 40.2 24.3 3.5 18.0 35.1 0.006MW
P. cintura (cm) 88.9 11.0 68 119 94.6 10.2 80 119 82.5 8.1 68 98 <0.001t
Cintura:altura 0.52 0.07 0.41 0.74 0.54 0.07 0.43 0.74 0.50 0.06 0.41 0.64 0.008MW
Cintura:anca 0.89 0.09 0.72 1.14 0.94 0.07 0.82 1.13 0.84 0.08 0.72 1.14 <0.001t
Tg/c-HDL 2.32 1.50 0.67 9.89 2.73 1.82 0.70 9.9 1.83 0.82 0.67 3.58 0.010MW
Index Tyg 8.41 0.50 7.41 10.0 8.51 0.54 7.49 10.02 8.30 0.43 7.41 9.03 0.050t

Legenda: μ média | DP desvio padrão | Min mínimo | Máx máximo | t teste T de Student | MW Teste U de Mann-Whitney

 

 Tabela 3. Respostas ESF-1 (questionário original)

Categoria n (%)
1. Presença de familiar (Grau I) com DM2 Sim 19 (21.6)
Não 69 (78.4)
2. Idade ≥ 40 anos Sim 72 (81.8)
Não 16 (18.2)
3. IMC ≥ 25 kg/m2 Sim 41 (46.6)
Não 47 (53.4)
4. Perímetro da cintura aumentado para o sexo Sim 43 (48.9)
Não 45 (51.1)
5. Rácio cintura:altura aumentado Sim 53 (60.2)
Não 35 (39.8)
6. Rácio cintura:anca aumentado Sim 52 (59.1)
Não 36 (40.9)
7. Presença de Acantosis Nigricans Sim 3 (3.4)
Não 85 (96.6)
8. Ingestão igual ou superior a 300 g de HC por dia

 

Sim 37 (42.0)
Não 51 (58.0)
9. Cravings por doces ou sal entre as refeições Sim 33 (37.5)
Não 55 (62.5)
10. Sonolência ou cansaço após as refeições Sim 17 (19.3)
Não 71 (80.7)
11. Ganho ou perda de peso recente ≥ 10 kg Sim 4 (4.5)
Não 84 (95.5)
12. HTA (ou medicado para) Sim 39 (44.3)
Não 49 (55.7)
13. Acordar com ou apresentar constantemente visão desfocada Sim 4 (4.5)
Não 84 (95.5)
14. Sensação constante de fome ou urinar com frequência Sim 15 (17.0)
Não 73 (83.0)
15. Presença de sintomas específicos (ver questionário) Sim 19 (21.6)
Não 69 (78.4)

Legenda: DM2 (Diabetes Mellitus tipo 2) | HC (Hidratos de Carbono) | HTA (Hipertensão Arterial) |

 

Tabela 4. Concordância (κ) e Odds Ratio (OR) entre as variáveis e o diagnóstico de SM

Variável κ de Cohen p O.R. IC95%
ESF1 pontuação ≥ 7 0.451 < 0.001 15.5 [3.87; 61.9]
ESF-1 pontuação ≥ 6 0.474 < 0.001 42.8 [5.25-348]
ESF1r pontuação ≥ 6 0.643 < 0.001 88.2 [10.4-746.4]
História familiar de DM2 (Grau I) 0.055 0.600 1.41 [0.392-5.04]
Idade ≥ 40 anos 0.087 0.045 1.26 [1.12-1.42]
IMC ≥ 25 kg/m2 0.239 0.004 6.07 [1.58-23.4]
Perímetro de cintura aumentado 0.308 < 0.001 21.2 [2.65-170]
Rácio cintura:altura 0.199 0.004 12.2 [1.52-97.7]
Rácio cintura:anca 0.168 0.017 5.67 [1.19-26.9
Presença de acanthosis nigricans 0.175 0.020 11.1 [0.94-131]
Ingestão ≥ 300 g de HC 0.086 0.331 1.73 [0.567-5.30]
Cravings por doces/sal 0.184 0.048 3.06 [0.977-9.60]
Sonolência/cansaço pós-prandial 0.084 0.429 1.68 [0.461-6.11]
Perda/ganho peso recente ≥ 10 kg 0.036 0.665 1.67 [0.161-17.2]
TA ≥130/85mmHg ou medicado 0.312 < 0.001 11.8 [2.46-56.1]
Visão desfocada/turva constante 0.036 0.665 1.67 [0.161-17.2]
Fome/sede constante, ou urinar frequentemente 0.196 0.065 3.15 [0.890-11.1]
Sintomas específicos Homens/Mulheres 0.128 0.225 2.11 [0.621-7.15]

Legenda: IC95% Intervalo de confiança a 95% | OR (Odds Ratio/razão de chances) | p significância

 

Tabela 5. Pontos de corte com Sensibilidade máxima em prever SM na amostra analisada (n=88)

Parâmetro Homens (n=47) Valor de referência Mulheres (n=41) Valor de referência
Youden Youdena Youden Youdena
Idade (anos) 51.5 38.5 – 49.5 49.5 –
Peso corporal (kg) 85.8 82.3 – 70.5 58.5 –
IMC (kg/m2) 26.6 26.6 30 28.6 23.0 30
P. cintura (cm) 94 91.5 94.0 81.5 81.5 80
P. anca (cm) 102.5 98.5 – 95.5 95.5 –
Cintura:altura 0.53 0.53 0.50 0.51 0.51 0.50
Cintura:anca 0.98 0.94 0.90 0.83 0.83 0.85
ESF-1 6 6 7 6 4 7
ESF-1r 6 6 7 5 5 7
Glicemia (mg/dl) 108.5 89.50 100 92.5 84.5 100
c-HDL (mg/dl) 39.0 40.5 40 49.0 61.5 50
Tg (mg/dl) 128.0 128.0 150 147.5 78.0 150
Triglicerídeos/c-HDL 2.82 2.82 – 2.37 2.37 –
TyG 8.85 8.68 – 8.13 8.13 –

Legenda: Youden = Sensibilidade + Especificidade-1 | Youden modificado (Youdena) = 2Sensibilidade + Especificidade-1

 

Tabela 6. Área abaixo da curva ROC (AUC) para cada marcador analisado

Parâmetro AUC p IC95%

Limite inferior

IC95%

Limite superior

ESF1r 0.936 <0.001 0.885 0.987
ESF1 0.880 <0.001 0.807 0.953
Triglicerídeos/c-HDL 0.870 <0.001 0.782 0.959
Índice TyG 0.853 <0.001 0.736 0.970
Glicemia 0.824 <0.001 0.693 0.956
c-HDL 0.817 <0.001 0.689 0.945
Cintura:altura 0.812 <0.001 0.707 0.917
Perímetro de cintura 0.811 <0.001 0.687 0.936
IMC 0.810 <0.001 0.694 0.926
Triglicerídeos 0.797 <0.001 0.664 0.930
Peso corporal 0.788 <0.001 0.645 0.932
Rácio cintura:anca 0.747 0.003 0.613 0.881
Perímetro da anca 0.677 0.032 0.530 0.823
Idade 0.631 0.113 0.502 0.759
Altura 0.522 0.786 0.332 0.713

 

Gráfico 1.0. Curva de ROC para o questionário ESF-1 e ESF-1 resumido (ESF-1r)

ESF-1

AUC= 0.880

p<0.001

IC95%:0.807-0.953

Ponto de corte: 6

(Sensibilidade 93.3%; Especificidade=75.3%)

ESF-1r

AUC= 0.936

p < 0.001

IC95%:0.885-0.987

Ponto de corte: 6

(Sensibilidade 93.3%; Especificidade=86.3%)

 

 Tabela 7. Correlações entre as variáveis da amostra (n=88)

Peso c-HDL Triglicerídeos Glicemia IMC P.cintura Cintura:altura Cintura:Anca Tg/c-HDL TyG
Peso Correlação -0.496 0.333* 0.352* 0.827* 0.839 0.606* 0.525 0.480* 0.388
Valor de p <0.001 0.002 0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001
c-HDL Correlação -0.496 -0.249* -0.324* -0.435* -0.500 -0.448* -0.468 -0.625* -0.277
Valor de p <0.001 0.019 0.002 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 0.009
Triglicerídeos Correlação 0.333* -0.249* 0.262* 0.415* 0.412* 0.474* 0.325* 0.902* 0.975*
Valor de p 0.002 0.019 0.014 <0.001 <0.001 <0.001 0.002 <0.001 <0.001
Glicemia Correlação 0.352* -0.324* 0.262*   0.282* 0.382* 0.338* 0.399* 0.353* 0.438*
Valor de p 0.001 0.002 0.014 0.008 <0.001 0.001 <0.001 0.001 <0.001
IMC Correlação 0.827* -0.435* 0.415* 0.282* 0.756* 0.775* 0.426* 0.535* 0.456*
Valor de p <0.001 <0.001 <0.001 0.008 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001
Perímetro de cintura Correlação 0.839 -0.500 0.412* 0.382* 0.756* 0.888* 0.727 0.565* 0.506
Valor de p <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001
Cintura:altura Correlação 0.606* -0.448* 0.474* 0.338* 0.775* 0.888* 0.668* 0.595* 0.515*
Valor de p <0.001 <0.001 <0.001 0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001
Cintura:anca Correlação 0.525 -0.468 0.325* 0.399* 0.426* 0.727 0.668* 0.485* 0.398
Valor de p 0.000 0.000 0.002 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001
Triglicerídeos/c-HDL Correlação 0.480* -0.625* 0.902* 0.353* 0.535* 0.565* 0.595* 0.485* 0.903*
Valor de p <0.001 <0.001 <0.001 0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001
Índice TyG Correlação 0.388 -0.277 0.975* 0.438* 0.456* 0.506 0.515* 0.398 0.903*
Valor de p <0.001 0.009 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001 <0.001

Por defeito, correlação de Pearson (R); * correlação de Spearman (rs)

 

Figura 1.  Odds Ratio significativos para Síndrome Metabólica na amostra

 

Figura 2.  Maiores preditores de Síndrome Metabólica na amostra, segundo AUC

 

 

Figura 3. Versão do questionário original ESF-1 (adaptado de Porchia et al, 2019).

 

 

Figura 4. Versão resumida do questionário (ESF-1r)

 

 

(1)Diana Costa

Enfermeira do Trabalho em indústria do ramo automóvel e Nutricionista. Morada completa para correspondência dos leitores: Rua do Barreiro, 547, Vila Nova de Gaia: E-mail: enf.dianacosta@gmail.com. Nº ORCID: 0000-0002-1341-0864

– CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Desenho do estudo; implementação; recolha, análise e interpretação dos dados; desenho e elaboração do artigo; escrita e revisão do artigo.

(2)Bruno Oliveira

Agregação em Nutrição Clínica e Doutoramento em Matemática Aplicada pela U. Porto. Professor Auxiliar na FCNAUP, onde já foi Vice-Presidente do Conselho Pedagógico, e Vice-Presidente do Conselho Consultivo, e é investigador do LIAAD – INESC TEC. Publicou mais de 70 artigos em revistas indexadas. Participou como Investigador em 5 projetos financiados pela UE e pela FCT. Orientou ou coorientou 9 estudantes que concluíram o Doutoramento e cerca de 50 que concluíram o Mestrado. 4150-180 Porto. E-mail: bmpmo@fcna.up.pt. Nº ORCID: 0000-0002-7710-4284

– CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Análise e interpretação dos dados estatísticos; Revisão final do manuscrito.

PORTUGUESE VALIDATION OF THE SCREENING TOOL OF METABOLIC SYNDROME (ESF-1)

 

 

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