Botelho-Rodrigues G, Cruz D, Ribeiro F, Silva L, Beleza M, Lagarto M, Oliveira-Silva J, Afonso A, Antunes I. Atividade Física e Comportamento Sedentário em Profissionais de Saúde: a influência dos fatores pessoais e laborais. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2026; 22: esub0567. DOI: 10.31252/RPSO.11.07.2026
PHYSICAL ACTIVITY AND SEDENTARY BEHAVIOUR AMONG HEALTHCARE WORKERS: THE INFLUENCE OF PERSONAL AND OCCUPATIONAL FACTORS
TIPO DE ARTIGO: Artigo Original
Autores: Botelho-Rodrigues G(1), Cruz D(2), Ribeiro F(3), Silva L(4), Beleza M(5), Lagarto M(6), Oliveira-Silva J(7), Afonso A(8), Antunes I(9).
RESUMO
Introdução
A baixa atividade física e o sedentarismo são fatores de risco cardiovascular e metabólico de grande relevância. As exigências laborais dos profissionais de saúde podem ser fortemente disruptoras de hábitos saudáveis. Alguns estudos revelam índices de sedentarismo e baixa atividade física preocupantes estes, mas as causas para tal não estão bem estudadas. Um nível adequado de atividade física leva a maior produtividade/desempenho e satisfação laboral.
Objetivo
Identificar os determinantes sociodemográficos e laborais do nível de atividade física e do sedentarismo entre profissionais de saúde.
Materiais e Métodos
Foi realizado um estudo transversal com 128 trabalhadores da área hospitalar. A recolha de dados baseou-se no questionário Global Physical Activity Questionnaire (GPAQ), complementado por variáveis clínicas e laborais. A inatividade física foi definida como GPAC inferior a 600 MET-min/semana, o sedentarismo como tempo sentado ≥8 horas/dia. As barreiras e a motivação para iniciar atividade física foram avaliadas numa entrevista semiaberta. Utilizaram-se modelos multivariados, incluindo eventuais variáveis confundidoras como a idade, sexo, grupo profissional, trabalho por turnos e presença de doença musculoesquelética. A análise estatística foi realizada no software R4.4.2, fixando-se a significância em 0,05.
Resultados e Discussão
Apenas 23,4% dos trabalhadores eram fisicamente ativos (GPAC médio 432 MET-min/semana). Na análise multivariada, não foi não encontrado nenhum determinante da atividade física com significado estatístico. A faixa etária dos 40-49 anos (18%), os assistentes operacionais (12%) e os técnicos superiores (11%) foram os grupos com menor proporção de fisicamente ativos.
O tempo médio em posição sentada foi de 8,3±2,6 horas, sendo a maioria dos trabalhadores sedentária (57,8%, n=74). O grupo profissional foi o único determinante estatisticamente significativo do sedentarismo, observando-se níveis superiores entre os médicos e assistentes técnicos, comparativamente a enfermeiros, assistentes operacionais e técnicos superiores.
Os valores de Índice de Massa Corporal e c-High Density Lipoproteins não apresentaram diferenças estatisticamente significativas de acordo com os níveis de atividade física e sedentarismo.
Como entraves à atividade física, destacaram-se a falta de motivação (32.1%), a elevada carga horária laboral (21.4%) e a imprevisibilidade dos turnos rotativos (12.2%).
Conclusão
Este estudo revelou níveis preocupantemente baixos de atividade física e elevada prevalência de comportamento sedentário entre profissionais de saúde. Não foram observados determinantes estatisticamente significativos da atividade física e o grupo profissional foi o único determinante significativo do sedentarismo. Identificaram-se entraves laborais e pessoais à atividade física que poderão ser alvo de intervenção pelos serviços de Saúde Ocupacional de referência enquanto agentes promotores da saúde, salientando a relevância da implementação de políticas institucionais de conciliação entre a vida pessoal e profissional.
Palavras-chave: atividade física, sedentarismo, profissionais de saúde, determinantes laborais, determinantes sociodemográficos.
ABSTRACT
Introduction
Low physical activity and sedentary behaviour are major cardiovascular and metabolic risk factors. The occupational demands placed on healthcare workers may significantly disrupt healthy lifestyle habits. Several studies report concerning levels of sedentary behaviour and low physical activity among this group, however, the underlying causes remain poorly understood. The appropriate level of physical activity leads to better productivity/performance and job satisfaction.
Objective
To identify sociodemographic and occupational determinants of physical activity levels and sedentary behaviour among healthcare workers.
Materials and Methods
A cross-sectional study was conducted with 128 hospital-based healthcare workers. Data collection was based on the Global Physical Activity Questionnaire (GPAQ), complemented by clinical and occupational variables. Physical inactivity was defined as GPAQ <600 MET-min/week, and sedentary behaviour as sitting time ≥8 hours/day. Barriers to and motivation for initiating physical activity were assessed through a semi-structured interview. Multivariable models were used, including potential confounders such as age, sex, professional group, shift work, and presence of musculoskeletal disease. Statistical analysis was performed using R software (version 4.4.2), with statistical significance set at 0.05.
Results and Discussion
Only 23.4% of participants were physically active (mean GPAQ score: 432 MET-min/week). In multivariable analysis, no determinant of physical activity reached statistical significance. The lowest proportions of physically active individuals were observed among participants aged 40–49 years (18%), nursing assistants (12%), and allied health technicians (11%).
The mean daily sitting time was 8.3 ± 2.6 hours, with most participants classified as sedentary (57.8%, n=74). Professional group was the only statistically significant determinant of sedentary behaviour, with higher sedentary levels observed among physicians and technical assistants compared with nurses, operational assistants, and allied health technicians.
Body mass index and HDL-c levels did not differ significantly according to physical activity or sedentary status.
The main barriers to physical activity were lack of motivation (32.1%), excessive working hours (21.4%), and the unpredictability of rotating shift schedules (12.2%).
Conclusion
This study revealed low levels of physical activity and a high prevalence of sedentary behaviour among healthcare workers. No statistically significant determinants of physical activity were identified, while professional group emerged as the only significant determinant of sedentary behaviour. Both occupational and personal barriers to physical activity were identified, highlighting opportunities for intervention by Occupational Health Departments as key health-promotion agents and underscoring the importance of institutional policies aimed at promoting work–life balance.
Keywords: physical activity, sedentary behaviour, healthcare workers, occupational determinants, sociodemographic determinants.
INTRODUÇÃO
A inatividade física e o sedentarismo refletem aspetos comportamentais com importante impacto na saúde e com um efeito modulador na doença. Embora sejam termos que tendem a ser utilizados de forma indiscriminada, constituem fatores de risco independentes para várias doenças.
A inatividade física é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um nível insuficiente de atividade física para cumprir com as recomendações mínimas: pelo menos 150 minutos de atividade de intensidade moderada por semana (1). Existe uma marcada heterogeneidade na definição nos trabalhos de investigação. Uma das ferramentas mais objetivas de a definir é o questionário Global Physical Activity Questionnaire (GPAQ) da OMS, que explora de forma abrangente a atividade física moderada e intensa nos tempos de lazer, durante o tempo de trabalho e nas deslocações, definindo como fisicamente inativo alguém com resultados inferiores a 600 MET-min/semana (2).
O comportamento sedentário é definido pela OMS como qualquer comportamento, quando acordado, caraterizado pelo gasto de menos de 1,5 MET, quando sentado, recostado ou deitado (1). O número de horas em comportamento sedentário para que um indivíduo seja classificado como “sedentário” não é consensual. Embora se observe uma variabilidade considerável nos trabalhos de investigação, o ponto de corte mais frequentemente utilizado é o das oito horas diárias (3), embora um estudo recente afirme que a inflexão na curva da mortalidade se dá apenas nas nove horas, aumentando mais a partir desse ponto (4).
Globalmente, estima-se que 23% dos adultos não cumpram as recomendações mínimas de atividade física, sendo este valor significativamente mais elevado nos países desenvolvidos, com impacto importante nas despesas em saúde (1). Em Portugal, estima-se que a prevalência de inatividade física seja de 65%. Dentro dos indivíduos que podem ser considerados fisicamente ativos, 34% mantém uma duração de prática de atividade física inferior ao desejável (5). Os custos imputáveis à inatividade física ascendem a 900 milhões de euros, cerca de 9% do orçamento nacional para a saúde (6).
Os dados sobre atividade física e sedentarismo em profissionais de saúde (PS) são escassos e pouco comparáveis. A aplicação indiscriminada dos conceitos de “atividade física” e de “exercício físico”, distintos pelo carácter programado e estruturado do segundo, é uma realidade nalgumas das publicações e um dos fatores fortemente limitantes da sua comparabilidade. Estes conceitos estão bem definidos no contexto Nacional no Despacho nº 8932/2017, publicado em Diário da República. Apesar da diversidade e pouca concordância entre conclusões, parecem ser transversais as tendências de os PS dedicarem pouco tempo à atividade física de lazer e de a atividade física relacionada com o trabalho ser de longa duração e baixa intensidade (7). Num estudo em 282 trabalhadores de uma unidade de cuidados intensivos do Brasil, 90% apresentava níveis inferiores aos recomendados pela OMS (8). Noutro, incluindo enfermeiros e “pessoal de apoio” nos cuidados de saúde primários, apenas 33,9% praticavam exercício moderado a intenso (9). Um estudo realizado na Polónia com vários grupos profissionais quantificou 46,8% de profissionais inativos (10). Numa investigação sobre trabalhadores dos cuidados de saúde primários em Espanha, 26,4% eram inativos, com tempo médio sentados de 5,8 horas por dia, sendo os médicos os mais inativos/sedentários (11). Outro projeto na Hungria referiu que 54,9% dos PS não praticavam exercício físico (12).
Em Portugal, os trabalhos que abordaram este tema são escassos e pouco comparáveis. Um estudo que abrangeu 126 médicos e enfermeiros evidenciou que 29,6% seriam fisicamente inativos, com um tempo médio sentado de dez horas por dia (13), desconhecendo-se dados sobre outros grupos profissionais. Num questionário IPAQ (International Physical Activity Questionnaire) distribuído online, da amostra analisada de 961 médicos, apenas 28% não cumpriam as recomendações de atividade física (14).
O Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física realça o papel central que os PS desempenham na promoção da atividade física e prescrição de exercício (5). A evidência aponta no sentido dos PS fisicamente ativos terem uma maior probabilidade de aconselhar e incentivar os doentes para a prática de exercício físico (15) (16) e fazê-lo de uma forma mais ambiciosa, quer quanto à frequência, quer quanto à duração (17). Deste modo, a inatividade física nos PS pode representar um potencial condicionante, não só para a saúde individual, mas também da capacidade de atuar como promotores da atividade física nos doentes. Para além da sua relevância no aconselhamento ao doente, vários estudos demonstram que a atividade física pode melhorar o desempenho laboral e atenuar efeitos nocivos do trabalho. A evidência parece confirmar a aplicabilidade do “paradoxo do exercício físico” também entre PS, com risco cardiovascular aumentado entre os que têm atividade física significativa durante o tempo de trabalho (7). Algumas das vantagens são uma maior capacidade física no trabalho autorreportada (18) (19), qualidade de vida autorreportada superior (19) e melhor gestão de stress e qualidade do sono entre PS (20) (21), sendo a evidência para prevenção do Burnout duvidosa (22).
Objetivos
Perante a escassez de dados sobre o tema, definiu-se como o objetivo primário identificar os determinantes sociodemográficos e laborais do nível de atividade física e sedentarismo entre PS de um hospital terciário português. Como objetivos secundários, inferir as prevalências de inatividade física e sedentarismo, analisar a sua relação com os valores de IMC e c-HDL e identificar as barreiras e motivações para serem fisicamente ativos.
METODOLOGIA
Foi realizado um estudo transversal num hospital central, incluindo trabalhadores de vários serviços, de forma não-probabilística aquando dos exames periódicos de saúde no Serviço de Saúde Ocupacional. Foram recolhidos dados relativos ao nível de atividade física, comportamento sedentário, variáveis metabólicas (IMC e c-HDL) e sobre as barreiras e motivações para aumentarem o nível de atividade física. O nível desta última foi avaliado com recurso ao questionário GPAQ da OMS, sendo considerados fisicamente ativos os trabalhadores com níveis iguais ou superiores a 600 MET-min/semana. O sedentarismo foi analisado recorrendo à questão do GPAQ “quanto tempo permanece sentado num dia?”, considerando-se como sedentário um trabalhador que permanecesse sentado oito ou mais horas diariamente. Os entraves para um maior nível de atividade física foram avaliados com recurso a uma entrevista semiestruturada, posteriormente analisadas de forma indutiva, sendo os mesmos categorizados em fatores de natureza pessoal ou laboral. A motivação para iniciar atividade física entre trabalhadores inativos foi avaliada numa escala ordinal de 1 a 10.
Foi utilizada a regressão logística binária para a identificação de determinantes da atividade física e do sedentarismo, e a regressão linear múltipla para a análise de eventuais associações entre estes comportamentos e parâmetros metabólicos (IMC, c-HDL). Foram incluídos como potenciais variáveis confundidoras no modelo multivariado a idade, sexo, grupo profissional, trabalho por turnos e presença de doença musculoesquelética. A análise estatística foi realizada no software R (versão 4.4.2, R Core Team, 2024), tendo a significância sido fixada em 0,05.
RESULTADOS
A amostra foi constituída por 128 trabalhadores hospitalares com idade média de 43,1±13,0 anos, predominantemente do sexo feminino (78,9%), estando mais representado o grupo da Enfermagem (44,1%). A descrição detalhada da amostra encontra-se na Tabela 1.
Atividade Física
Na análise univariada (não ajustada para confundidores), destacaram-se como determinantes da atividade física o grupo profissional e a idade. Observou-se uma menor proporção de profissionais fisicamente ativos entre os assistentes operacionais (11,5%) em comparação com os médicos (39,1%), com um Odds Ratio (OR) de 0,20 (IC95%=0,04–0,81; p=0,033), e entre os trabalhadores da faixa etária dos 40-49 anos em comparação com os da faixa dos 20-29 anos (OR=0,18, IC95%=0,04–0,66; p=0,016). Não foram encontradas diferenças entre outros pares de grupos profissionais ou de faixas etárias. As proporções de profissionais fisicamente ativos por grupo profissional e por faixa etária são detalhadas na Figura 1.
O modelo multivariado com ajuste de confundidores permitiu discriminar os profissionais ativos com boa precisão (AUC=0,73) e não encontrou nenhum determinante que, de forma isolada e estatisticamente significativa, influenciasse a atividade física. Os trabalhadores da faixa etária entre os 40 e os 49 anos apresentaram os níveis mais baixos de atividade física sem, no entanto, atingir valores significativos do ponto de vista estatístico (p=0,08) (Figura 2).
O sexo, o grupo profissional, o trabalho noturno e o diagnóstico prévio de doença musculoesquelética não se revelaram determinantes significativos, nem na análise univariada, nem no modelo multivariado.
A pontuação média no questionário GPAC foi de 432 MET-min/semana, com 23,4% dos trabalhadores fisicamente ativos.
Sedentarismo
Apurou-se um tempo médio sentado de 8,3±2,6 horas, sendo a maioria dos trabalhadores sedentária (57,8%, n=74). O grupo profissional foi o único determinante estatisticamente significativo do sedentarismo: em comparação com os médicos, os enfermeiros (OR=0,01; p<0,001), os assistentes operacionais (OR=0,03; p<0,001) e os técnicos superiores (OR=0,06; p=0,038) apresentaram odds significativamente inferiores em serem sedentários. Não se observaram diferenças entre o grupo dos médicos e o dos assistentes técnicos (OR=0,13, p=0,20). A idade, o sexo, o trabalho noturno e a presença de doença musculoesquelética não se associaram de forma significativa ao sedentarismo. Os determinantes do sedentarismo segundo o modelo multivariado e os níveis de sedentarismo por grupo profissional encontram-se representados nas Figuras 3 e 4, respetivamente.
Relação com Parâmetros Metabólicos
Os valores de IMC e c-HDL não apresentaram diferenças estatisticamente significativas de acordo com os níveis de atividade física e sedentarismo.
O IMC foi menor nos profissionais fisicamente ativos, com uma diferença média ajustada de –2,2 kg/m² (IC95%= –4,7 a +0,2; p=0,07). O c-HDL foi, em média, 2,3 mg/dL superior nos ativos (p=0,37). Registaram-se valores inferiores de c-HDL nos sedentários (-4,6 mg/dL, p=0,098). Os sedentários apresentaram, em média, um IMC 1,2 unidades superior aos não-sedentários (p=0,32). A relação da prática de atividade física e do sedentarismo com parâmetros metabólicos encontra-se representada na Figura 5.
Entraves ao Aumento do Nível de Atividade Física Extralaboral
Os fatores referidos como sendo entraves à atividade física dividiram-se de forma semelhante entre laborais (51,9%) e pessoais (48,1%). Destacaram-se como os cinco mais referidos a falta de motivação (32,1%), seguida da carga horária laboral elevada com pouco tempo livre (21,4%), a imprevisibilidade horária associada ao trabalho por turnos rotativos (12,2%), a fadiga resultante do trabalho (10,7%) e o pouco tempo resultante das responsabilidades com os filhos (9,2%).
Relativamente aos trabalhadores inativos, quando questionados sobre qual a motivação para aumentar os níveis de atividade e qual a probabilidade de serem fisicamente ativos dentro de um mês (ambas de 1 a 10), a mediana das respostas foi de 2 e 1, respetivamente (Figura 6).
DISCUSSÃO
O presente estudo revelou uma tendência para que os trabalhadores da faixa etária entre os 40 e os 49 anos fossem fisicamente menos ativos (p=0,08). Nos poucos estudos que exploraram o fator idade, esta revelou-se inconsistente enquanto determinante da atividade física em PS: enquanto nalguns casos são referidos níveis superiores de atividade física entre os mais jovens (10) (11) (19), noutros a idade não influenciou a atividade física (8) (9) (14).
As análises publicadas sobre a influência do sexo e do grupo profissional foram apenas realizadas em subgrupos específicos, o que impede a sua comparação. A menor atividade física entre os assistentes operacionais poderá ser mediada em parte por uma menor literacia em saúde, que tem uma associação descrita com menores níveis de atividade (23). No que parece ser o único estudo que avaliou a eficácia de intervenções visando o aumento da literacia em saúde para promover a atividade física, o seu aumento não se associou a maior nível de atividade física, deixando dúvida sobre a eficácia destas iniciativas (24). A hipotética influência do trabalho por turnos e da existência de doença musculoesquelética não se confirmou, não sendo do nosso conhecimento nenhum estudo que as tenha analisado com o qual se possam estabelecer paralelismos.
A prevalência de inatividade física apurada (76,6%) é francamente superior à da maioria dos estudos existentes e ligeiramente superior à estimada para a população portuguesa. Mesmo comparando apenas o subgrupo dos médicos como analisado por Pereira et al, a prevalência de inatividade física continuou a ser drasticamente superior (76,6 vs. 28%) (14). O facto deste estudo não ter sido desenhado para determinação de prevalências (amostra não-probabilística) pode ter apresentado um viés importante na seleção de médicos mais motivados para a atividade física, podendo ter contribuído para as discrepâncias. A comparação com os restantes estudos é limitada pela heterogeneidade contextual e metodológica.
A quase negligenciável contribuição das deslocações para a atividade física (apenas um dos 128 trabalhadores envolvidos se deslocava a pé ou de bicicleta por mais de dez minutos – limiar estabelecido pelo questionário GPAC), já descrita na literatura entre PS de países desenvolvidos (9).
Os resultados indicam que a maioria dos PS permanecia sentada por longos períodos, com um tempo médio sentado diário de 8,3 horas, sendo, assim, 57,8% sedentários. O grupo profissional revelou-se um determinante significativo do sedentarismo, possivelmente por força das imposições técnicas das funções de cada grupo e de uma grande parte do dia ser passada no trabalho. Apesar dos valores significativos, a grande magnitude do efeito observado deve ser interpretada com cautela, podendo ser influenciada por limitações do modelo estatístico. Torna-se difícil comparar estes resultados devido à grande variabilidade entre estudos, que reportam tempos em posição sentada desde 4,3 até 10 horas diárias (7) (14). No único estudo que quantificou objetivamente, com recurso a um dispositivo de medida, o período sentado obteve resultados semelhantes (3,1 h/dia em tempo de lazer e 5,8 h/dia no trabalho, total de 8,9 h/dia), destacando uma tendência para mais períodos em posição sentada durante o tempo de lazer para os profissionais com mais tempo a pé no trabalho (25).
A evidência da eficácia de intervenções laborais para a redução do sedentarismo é reduzida e não existem dados sobre a sua eficácia a médio-longo prazo. Apesar do aparente sucesso inicial reportado nalgumas estratégias, a redução do tempo sentado parece dever-se à sua substituição por tempo em ortostatismo estático, que não é necessariamente mais benéfico do que a posição sentada, comparativamente ao tempo em deambulação dinâmica, que seria preferível (26). Partindo dos resultados por obtidos, afirmar-se-iam como alvos prioritários para intervenção quanto ao sedentarismo os médicos e os assistentes técnicos. Contudo, a redução do tempo laboral em posição sentada pode ser limitada pelas exigências técnicas profissionais. O aumento da atividade física em período de lazer poderia contrariar, pelo menos em parte, os efeitos cardiovasculares deletérios do sedentarismo: enquanto um estudo aponta para a eliminação total do risco acrescido condicionado pelo sedentarismo (3), outros referem apenas uma redução parcial (27) (28).
Estão descritas na literatura variações significativas, mas ligeiras, do IMC e c-HDL em função da atividade física e do sedentarismo. A prática regular de exercício físico está associada um peso inferior, com diferenças de até menos 2 kg em programas de treino aeróbio isolado (29) e de 1 a 3 kg quando englobado em programas abrangentes de perda de peso (30), o que corresponde aproximadamente a diferenças de 0,3–1,0 kg/m² de IMC em adultos, ligeiramente inferiores à tendência verificada no presente estudo (–2,2 kg/m²). Estudos que compararam perfis de c-HDL revelam valores inferiores nos mais sedentários (-2,3 mg/dL), em linha com a tendência detetada no presente estudo (-4.6 mg/dL) (31).
As barreiras relatadas para um maior nível de atividade física dividiram-se em proporções semelhantes entre fatores pessoais e fatores laborais. Em linha com as referidas nos poucos estudos exploratórios sobre o tema, referem-se, a falta de tempo e a fadiga resultante do trabalho (12), às quais se juntam a falta de motivação/negligência (32). Estes resultados enfatizam a necessidade transversal da implementação de políticas de conciliação entre a vida profissional e pessoal como forma de promoção da atividade física, como uma maior previsibilidade na distribuição de turnos, a divulgação das escalas de forma mais atempada e o alargamento da oferta de espaços para prática de exercício físico nas instalações da Instituição. Dada a baixa motivação para o aumento da atividade física, intervenções motivacionais sob a forma de formação e informação dos trabalhadores poderiam ser relevantes. Dado que a promoção da saúde integra a missão dos serviços de Saúde Ocupacional, estes poderão ter um papel preponderante nestas medidas.
Neste estudo, a motivação para iniciar atividade física entre os sedentários foi extremamente reduzida. Esta realidade é divergente da relatada pelos poucos estudos que exploraram o tema, que reportam motivação geralmente elevada. Gelisanga et al. referem que cerca de 60% dos 282 inquiridos estavam “muito interessados” em ser fisicamente ativos, 38% “algo interessados” e apenas 2% não revelavam interesse (8) e Fernandes et al relatam que o principal determinante para a prática de exercício físico entre PS é a motivação pessoal que, quando ausente, reduz a probabilidade de atividade em cerca de 53% (13).
LIMITAÇÕES
O desenho transversal deste estudo permite apenas a determinação de correlações, não de causalidade, e a amostra utilizada foi não-probabilística. Neste contexto, não podem ser realizadas generalizações dos dados encontrados. O reduzido número de indivíduos sedentários em algumas categorias profissionais poderá ter contribuído para a sobrestimação da magnitude dos odds ratios.
CONCLUSÕES
O presente estudo revelou níveis marcadamente baixos de atividade física e uma elevada prevalência de comportamento sedentário entre os PS.
A pontuação média no questionário GPAC foi de 432 MET-min/semana, com 23,4% dos trabalhadores considerados fisicamente ativos. Na análise multivariada, não foi não encontrado nenhum determinante que, de forma isolada e estatisticamente significativa, influenciasse a atividade física.
O tempo médio em posição sentada foi de 8,3±2,6 horas, sendo a maioria dos trabalhadores sedentária (57,8%, n=74). O grupo profissional foi o único determinante estatisticamente significativo do sedentarismo, observando-se níveis de sedentarismo superiores entre os médicos e assistentes técnicos, comparativamente a enfermeiros, assistentes operacionais e técnicos superiores.
Os valores de IMC e c-HDL não apresentaram diferenças estatisticamente significativas de acordo com os níveis de atividade física e sedentarismo.
Entre os entraves à atividade física, destacaram-se a falta de motivação (32,1%), a elevada carga horária laboral (21,4%), a imprevisibilidade horária associada ao trabalho por turnos rotativos (12,2%), a fadiga resultante do trabalho (10,7%) e o pouco tempo resultante das responsabilidades com os filhos (9,2%).
CONFLITOS DE INTERESSES E OUTRAS QUESTÕES ÉTICAS
Nada a declarar.
Agradecimentos
A todos os colaboradores neste projeto de investigação.
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Tabela 1 – Caraterísticas da amostra
| Amostra | |
| Idade média ± σ, (minimo-máximo) | 43,1 ± 13,0 (22-69) |
| Sexo (feminino), n (%) | 101 (78,9) |
| Grupo Profissional, n (%) | |
| Enfermeiro | 56 (44,1) |
| Assistente Operacional | 26 (20,5) |
| Médico | 23 (18,1) |
| TSDT | 9 (7,1) |
| Tipo de Serviço, n (%) | |
| Médico | 53 (41,4) |
| Cirúrgico | 49 (38,3) |
| Urgência | 18 (14,1) |
| Apoio | 8 (6,3) |
| Total (%) | 128 (100) |



(1)Gonçalo Botelho-Rodrigues
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade de Lisboa. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Mestre em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. MORADA COMPLETA PARA CORRESPONDÊNCIA DOS LEITORES: Serviço de Saúde Ocupacional, Praceta Professor Mota Pinto, Celas, 3004-561 Coimbra. E-MAIL: goncalo.b.rodrigues@outlook.com. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0004-1542-8787
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Autor principal do artigo – Conceptualização, Investigação, Curadoria de dados, Análise formal, Metodologia, Redação do manuscrito inicial, Gestão do projeto
(2)Diogo Cruz
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade do Minho. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 19023@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0006-5731-5574
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Autor principal do artigo – Conceptualização, Investigação, Curadoria de dados, Análise formal, Metodologia, Redação do manuscrito inicial, Gestão do projeto (contribuição semelhante, ordenado por senioridade)
(3)Flávio Ribeiro
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina Física e de Reabilitação na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade de Coimbra. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 17786@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1994-3450
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautor – Conceptualização, Investigação, Validação, Revisão e edição do manuscrito
(4)Luís Silva
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade da Beira Interior. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 17784@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID (CASO EXISTA): https://orcid.org/0009-0007-5957-9685
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautor – Investigação, Curadoria de dados
(5)Mário Beleza
Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade do Porto. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Pós-graduado em Medicina Desportiva pela Universidade do Porto. Competência em Avaliação do Dano Corporal pela OM. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 17785@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1743-2297
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Autor principal do artigo – Conceptualização, Investigação, Curadoria de dados, Análise formal, Metodologia, Redação do manuscrito inicial, Gestão do projeto (contribuição semelhante, ordenado por senioridade)
(6)Mariana Lagarto
Médica Interna de Formação Especializada em Pneumologia na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Assistente Convidada na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade Nova de Lisboa. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 19001@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0003-5327-2085
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautora – Conceptualização, Investigação, Curadoria de dados, Análise formal
(7)Joana Oliveira-Silva
Médica do Trabalho independente. Especialista em Medicina do Trabalho. Mestre em Medicina pela Universidade de Lisboa. Mestre em Estatística para a Saúde pela Universidade Nova de Lisboa. Pós-graduada em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. 7800-001 Beja. E-MAIL PARA CORRESPONDÊNCIA DOS LEITORES: jmrfos@gmail.com. Nº ORCID (CASO EXISTA): https://orcid.org/0000-0002-3925-242X
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautora – Análise formal, Metodologia, Validação, Revisão e Edição do manuscrito
(8)Alexandre Afonso
Assistente Hospitalar de Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Especialista em Medicina do Trabalho. Mestre em Medicina pela Universidade de Coimbra. Pós-graduado e Mestre em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Competência em Avaliação do Dano Corporal. Competência em Medicina Social. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 11376@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID (CASO EXISTA): https://orcid.org/0000-0002-4841-7599
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautor – Supervisão, Validação, Revisão e Edição do manuscrito
(9)sabel Antunes
Assistente Graduada Sénior de Medicina do Trabalho e Diretora do Serviço de Saúde Ocupacional da Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Competência em Avaliação do Dano Corporal. Competência em Medicina Social. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: isantunes@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9557-0572
-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautora – Supervisão, Validação, Revisão e Edição do manuscrito








