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Estatuto editorial

Setor da Reciclagem versus Saúde e Segurança Ocupacionais

19 Junho, 2026Artigos de Revisão

Santos M, Almeida A, Chagas D. Setor da Reciclagem versus Saúde e Segurança Ocupacionais. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2026; 21: esub0563. DOI: 10.31252/RPSO.20.06.2026

 

RECYCLING SECTOR VERSUS OCCUPATIONAL HEALTH AND SAFETY

  

TIPO DE ARTIGO: Artigo de Revisão

 

AUTORES: Santos M(1), Almeida A(2), Chagas D(3).

 

RESUMO

Introdução/enquadramento/objetivos

Devido ao aumento generalizado do consumismo na generalidade dos países, torna-se cada vez mais importante a reciclagem, a nível económico e ambiental.

Metodologia

Trata-se de uma Revisão Bibliográfica, iniciada através de uma pesquisa realizada em maio de 2024 nas bases de dados “CINALH plus with full text, Medline with full text, Database of Abstracts of Reviews of Effects, Cochrane Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Cochrane Methodology Register, Nursing and Allied Health Collection: comprehensive, MedicLatina e RCAAP”.

Conteúdo

Em cidades muito habitadas, por vezes nem todos conseguem ter um posto de trabalho, pelo que se sujeitam a condições laborais menos ideais, de forma a garantir a subsistência. São geralmente indivíduos com menos habilitações e qualificações profissionais, que podem até viver um pouco à margem da sociedade. Por vezes estes postos de trabalho são ocupados por uma franja da população mais vulnerável e com escassa remuneração; em algumas circunstâncias até existem programas de reinserção social que recrutam para trabalhar neste contexto, podendo tal garantir a sua subsistência.

Discussão e Conclusões

As particularidades do setor da Reciclagem dependem muito dos produtos reciclados em si e do contexto de trabalho, muito variável entre as diversas áreas geográficas e caraterísticas dos funcionários.

Genericamente os principais fatores de risco são os agentes químicos, como metais pesados (mercúrio, cádmio, chumbo, índio) e nanopartículas, fibras respiráveis ou matéria particulada; bem como agentes biológicos, ruido e até questões associadas ao risco ergonómico.

Estão descritos na literatura alguns dados relativos a medidas de proteção e perceção de risco, bem como acidentes de trabalho e doenças profissionais, mas trata-se de um setor pouco estudo, cujo avaliação com qualidade traria frutos, caso existisse e fosse divulgada através dos meios adequados.

Palavras-chave: reciclagem, saúde ocupacional, medicina do trabalho, enfermagem do trabalho e segurança no trabalho.

                                                                                                            

ABSTRACT

Introduction/Background/Objectives

Due to the widespread increase in consumerism in most countries, recycling is becoming increasingly important, both economically and environmentally.

Methodology

This is a literature review, initiated through a search conducted in May 2024 in the databases “CINALH plus with full text, Medline with full text, Database of Abstracts of Reviews of Effects, Cochrane Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Cochrane Methodology Register, Nursing and Allied Health Collection: comprehensive, MedicLatina and RCAAP”.

Content

In densely populated cities, sometimes not everyone can find a job, so they are subjected to less-than-ideal working conditions to ensure their livelihood. These are generally individuals with fewer skills and professional qualifications, who may even live somewhat on the margins of society. Sometimes these jobs are occupied by a more vulnerable segment of the population with low wages; in some circumstances, there are even social reintegration programs that recruit people to work in this context, which can guarantee their subsistence.

Discussion and Conclusions

The specific characteristics of the recycling sector depend heavily on the recycled products themselves and the work context, which varies greatly between different geographical areas and employee characteristics.

Generally, the main risk factors are chemical agents, such as heavy metals (mercury, cadmium, lead, indium) and nanoparticles, respirable fibers or particulate matter; as well as biological agents, noise, and even issues associated with ergonomic risk.

Some data related to protection measures and risk perception, as well as work accidents and occupational diseases, are described in the literature, but this is an understudied sector, whose quality assessment would be fruitful if disseminated through appropriate means.

KEYWORDS: recycling, occupational health, occupational medicine, occupational nursing, and occupational safety.

 

 

INTRODUÇÃO

Em quase todos os países existem muito trabalhadores que se dedicam a este setor, de forma mais ou menos formal, estando geralmente expostos a diversos fatores de risco, não havendo bibliografia extensa ou rigorosa em relação a alguns detalhes em particular.

 

METODOLOGIA

Em função da metodologia PICo, foram considerados:

–P (population): trabalhadores a exercer no setor da Reciclagem

–I (interest): reunir conhecimentos relevantes sobre a Saúde e Segurança Ocupacionais desta área

–C (context): saúde e segurança ocupacionais aplicadas a funcionários que trabalhem na Reciclagem

Assim, a pergunta protocolar será: Quais os principais fatores de risco/riscos laborais, medidas de proteção, principais acidentes de trabalho e doenças profissionais no setor da Reciclagem?

Foi realizada uma pesquisa em maio de 2024 nas bases de dados “CINALH plus with full text, Medline with full text, Database of Abstracts of Reviews of Effects, Cochrane Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Cochrane Methodology Register, Nursing and Allied Health Collection: comprehensive, MedicLatina e RCAAP”.

No quadro 1 podem ser consultadas as palavras-chave utilizadas nas bases de dados.

 

CONTEÚDO

Evolução do setor da Reciclagem

Devido ao aumento generalizado do consumismo na generalidade dos países, torna-se cada vez mais importante a reciclagem (1) (2), a nível económico e ambiental (1) (3).

Esta pode ser definida como o processo de transformação dos resíduos sólidos por meio de alterações das suas propriedades (físicas, químicas e/ou biológicas), em novos produtos, nos quais passam a ser matéria-prima (4).

Estima-se que mundialmente trabalhem no manuseamento de resíduos recicláveis cerca de 15 milhões de indivíduos (4) (5); no Brasil quantificam-se cerca de 300.000 (5) (6), 800.000 (4) ou 1 milhão (7) e no Reino Unido cerca de 200.000 indivíduos (com uma velocidade crescente de cerca de 3 a 4% por ano, neste caso) (8).

A crescente procura de produtos tecnológicos e a rapidez com que estes ficam desatualizados levam ao aumento do lixo eletrónico (como telemóveis, laptops, eletrodomésticos, computadores, televisões e equipamento da indústria automóvel) (2) (9) (10). Ainda assim, estima-se que apenas 10% dos equipamentos elétricos seja reciclado a nível mundial (11).

Por vezes, países mais desenvolvidos recrutam empresas em países menos desenvolvidos para efetuar este serviço (2). Grandes quantidades de lixo eletrónico produzido na Europa e EUA são enviadas para a Ásia, América do Sul e África, devido ao baixo custo da reciclagem; parte do equipamento volta a ser utilizado na íntegra, como usado, se as condições o permitirem, os restantes 80% são desmantelados (10). Os países menos desenvolvidos vêm a oportunidade económica, apesar de as técnicas utilizadas nem sempre serem as mais adequadas; aliás, nestes locais, por vezes, até se mistura o trabalho com lazer, refeições e/ou convívio com familiares e/ou amigos (2). O setor informal não se sujeita a normas ou legislação, nem tem acesso aos serviços de saúde e segurança ocupacionais. O trabalho é geralmente realizado por funcionários com poucas habilitações, com técnicas baseadas na destruição mecânica e queima, com os riscos inerentes para a saúde e ambiente; sem conhecimentos a nível de saúde e segurança ocupacionais e sem EPIs ou instrumentos adequados de trabalho (10) (12). A prioridade geralmente é o lucro e não a saúde, segurança ou o meio ambiente (12). No processo removem-se os componentes que ainda poderão ter alguma utilidade, como prata e ouro ou até plástico; alguns produtos não são removidos em algumas empresas (9). A reciclagem de produtos eletrónicos é assim um mercado em expansão, sobretudo em países subdesenvolvidos, ou seja, numa população onde já podem existir deficiências nutricionais, que poderão potenciar os danos na saúde (13). A globalização aumenta o risco para os países menos desenvolvidos e nem todos os países têm normas/legislação adequadas (14).

Estimou-se que em 2019 foram produzidas cerca de 54 milhões de toneladas (10) (15) de lixo eletrónico mundialmente; o que poderá constituir alguma rentabilidade para indivíduos menos favorecidos (12). O maior produtor parece ser os EUA (7 milhões de toneladas), seguido pela China (6); contudo, por habitante, são alguns países europeus os maiores produtores (15). Estima-se que, em 2030, esse valor possa atingir as 74; ou seja, um crescimento médio de duas toneladas por ano (10).

Em 2020 o governo tailandês proibiu a entrada de produtos para reciclagem eletrónica e em 2016 o Chile criou legislação relativa à reciclagem de produtos elétricos (12). A reciclagem de produtos elétricos em África tornou-se um problema de saúde pública relevante (16). A China, India e alguns países africanos recebem cerca de 80% do lixo eletrónico. Em 2018 a China criou legislação para impedir a importação neste contexto (15). No ano de 2019 o Gana importou cerca de 215.000 toneladas de lixo eletrónico, fazendo com que alguns locais deste país sejam dos mais poluídos mundialmente (10). Nos países menos desenvolvidos a reciclagem tornou-se uma fonte de rendimento para a parte mais pobre da sociedade; estima-se que cerca de 15 milhões de indivíduos nestes países se dediquem à reciclagem (17).

A poluição ambiental poderá ser potenciada porque os detritos, às vezes, são depositados em rios ou em aterros inseguros (15).

Caraterização dos Trabalhadores que geralmente se dedicam à Reciclagem

Em cidades muito habitadas, por vezes nem todos conseguem ter um posto de trabalho, pelo que se sujeitam a condições laborais menos ideais, de forma a garantir a subsistência. São geralmente indivíduos com menos habilitações e qualificações profissionais, que podem até viver um pouco à margem da sociedade (7). Por vezes estes postos de trabalho são ocupados por uma franja da população mais vulnerável e com escassa remuneração; em algumas circunstâncias até existem programas de reinserção social que recrutam para trabalhar neste contexto (1), podendo tal garantir a sua subsistência (3). Em várias cidades de países não desenvolvidos muitos indivíduos baseiam a sua subsistência na reciclagem (nomeadamente 2% da população asiática e sul-americana) (18).

Estes trabalhadores informais trabalham por sua conta, sem quaisquer regras ou organização. Mesmo em países que proíbem esta forma de exercer esta atividade, estes geralmente não têm capacidade de fiscalizar e/ou punir os infratores. As suas condições de vida aumentam a vulnerabilidade aos problemas médicos. A roupa destes operadores informais, quando é lavada, por exemplo, é através dos próprios e sem usar geralmente as condições adequadas (18).

No Brasil, ainda que a profissão seja reconhecida desde 2002, uma parte dos indivíduos que a ela se dedicam fazem-no de forma informal, sem vínculo e, por vezes, com escassa remuneração, poucas habilitações e até sem domicílio. Pelas condições de trabalho e habitacionais, estes indivíduos apresentam com alguma frequência problemas médicos, por exemplo, a nível respiratório, músculo-esquelético, cardiovascular (hipertensão arterial), oftalmológico e de otorrinolaringologia (hipoacusia); não sendo raros os acidentes de trabalho (corte, perfuração, queda e/ou atropelamento, por vezes mortais) (4). Outro estudo brasileiro concluiu que estes trabalhadores apresentavam maior incidência de hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia e obesidade (nomeadamente abdominal); justificadas por hábitos menos saudáveis e mais dificuldades em aceder aos serviços de saúde (7).

Outros estudos brasileiros concluíram que a maioria destes operadores é do sexo feminino (3) (7) ou masculino, de etnia negra ou mulata, na 3ª ou 4ª décadas de vida (6), com poucas habilitações (3) (6) e escassos rendimentos (6); elevado turnover laboral e poucos certificados de ausência ao trabalho; a maioria afirma que tem boa saúde, ainda que as alterações músculo-esqueléticas não sejam raras ou patologias como hipertensão arterial. Apesar de fisicamente ativos reportam globalmente elevados consumos de álcool e tabaco (3). A precaridade pode-se refletir não só nas condições de trabalho e horários, como também nos relacionamentos interpessoais. Por vezes, estes indivíduos têm dificuldade em aceder aos serviços de saúde (19). Genericamente têm baixo poder económico, habitam em zonas vulneráveis e têm um nível socioeconómico baixo (5). Os trabalhadores deste setor no Brasil fazem por isso parte de um grupo social vulnerável em relação à saúde, educação, habitação e condições de trabalho (6). O nível socioeconómico mais baixo associa-se a mais mortalidade por doença cardiovascular, menor educação e piores condições de vida (7). Todas estas condições podem diminuir a autoestima; ainda que também possam desenvolver mecanismos de defesa individuais e/ou coletivos (19).

Os micronutrientes podem ser afetados por alguns metais pesados (como o cádmio, chumbo e arsénio); por sua vez, a deficiência de micronutrientes poderá agravar a toxicidade dos metais pesados. Num estudo com recicladores verificou-se que estes apresentavam níveis baixos de magnésio, ferro e zinco; todos relevantes a nível fisiológico, ainda que com gravidade muito variável (13).

Fatores de Risco/Riscos laborais

As equipas de saúde e segurança nem sempre têm oportunidade de investir neste setor (8), não só porque existem geralmente orçamentos restritos (1), mas também porque as atitudes de prevenção não estão bem enraizadas, pelo que os fatores de risco ficam ainda mais potenciados (5). Contudo, estes nem sempre são identificados pelos trabalhadores, sendo também possível que estes, mesmo após identificação, os neguem, o que dificulta a adesão a medidas de proteção, até porque o objetivo poderá ser apenas subsistir economicamente (1) (5). A maioria não exibe então preocupações relativas aos riscos laborais (6), não interagindo com as chefias no sentido de criar um ambiente de trabalho mais seguro. A dificuldade de acesso a outro posto de trabalho também poderá fazer com que se ignorem ou não valorizem os fatores de risco (1).

Entre estes, os que geralmente passam mais despercebidos são o ruído, atropelamento, agentes biológicos e químicos (1). Alguns consideram que os mais relevantes são o desconforto térmico (frio, calor, humidade), bem como o esforço físico (6). Segundo a literatura, os principais são os agentes biológicos/mordedura, desconforto térmico, poeiras, ruido e agentes químicos (18).

O trabalho informal a nível de reciclagem é associado geralmente a desvalorização e exclusão social e é frequentemente realizado em condições de insalubridade; para além de os indivíduos não terem usualmente formação ou EPIs. Por vezes, os horários são extensos e em alguns países usufruem de uma remuneração inferior ao salário mínimo (20). Por vezes, os instrumentos de trabalho são obsoletos e/ou mal desenhados, ou adaptados de equipamentos com outros objetivos iniciais (1).

No quadro 2 estão assinalados os principais fatores de risco deste setor.

-agentes químicos

Na reciclagem de produtos de jardinagem, por exemplo, pode existir exposição a metais pesados, dioxinas, furanos e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. Na reciclagem de metal, baterias e cabos, poderá ocorrer exposição a chumbo, mercúrio, prata e cobalto (8).

Os recicladores informais usam técnicas arcaicas, por vezes sem qualquer tecnologia, como queimar, de forma a conseguir extrair estanho e ouro e assim ficam expostos não só os recicladores, mas também quem residir na proximidade (16).

Foi publicado que, neste setor, os sítios mais poluídos situam-se no Gana, através de exportações feitas pela Europa e EUA, nomeadamente a nível de metais tóxicos, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, compostos orgânicos voláteis e matéria particulada.

A exposição (genérica) a resíduos de reciclagem poderá levar a alterações no DNA, respiratórias, tiroideas, neonatais e/ou oncológicas (16).

-metais pesados

Muitos investigadores consideram que os principais fatores de risco serão o eventual contato com metais pesados (como mercúrio, cádmio, chumbo) (2), mas a exposição a estes pode passar despercebida (8). São geralmente libertados para o ar, solo e/ou água; atingindo não só os trabalhadores, mas também os residentes (10).

Genericamente, eles podem potenciar o risco de problemas cardíacos (2), bem como cancro e alterações respiratórias, neurológicas, renais e reprodutivas (9). Alguns também podem potenciar a excreção de alguns micronutrientes. A diaforese acentuada e/ou a diminuição do apetite poderão perturbar ainda mais as alterações nutricionais (13).

-mercúrio

A exposição ao mercúrio é por vezes muito elevada entre os operadores da reciclagem globalmente e não existem concentrações consideradas seguras. A convenção de Minamata foi adotada pelos EUA em 2013 e outros 128 países já o tinham feito, com o objetivo de diminuir o risco. A Organização Mundial do Trabalho acrescentou detalhes à convenção, de forma a esta ficar mais completa, criando um mecanismo de supervisão (14).

Ele existirá eventualmente em alguns produtos de iluminação (9), como lâmpadas fluorescentes (8) (14); bem como baterias (8) (14), equipamento elétrico (8) e termómetros. Quando estes produtos se quebram libertam-se vapores de mercúrio, que podem permanecer no ar atmosférico por semanas (14). Alguns trabalhadores, mesmo nos EUA, apresentam sintomas de intoxicação. 33% é libertado nas primeiras oito horas após a lâmpada ser quebrada (22).  Por vezes, parte da população/trabalhadores não está bem informado em relação aos riscos, de qual é o seu patamar de exposição e/ou consideram que o risco é superior para os outros do que para si. Por sua vez, alguns acham que os EPIs são totalmente capazes de anular o risco e outros que estes são difíceis de usar- por isso, o risco global geralmente é subestimado (14). Encontrou-se mercúrio nos veículos de transporte, o que significa que este é levado para a domicílio, mesmo nos países desenvolvidos (22).

A semiologia associada à intoxicação carateriza-se por insónia, alterações da visão, astenia, memória, tremor e do paladar (sobretudo em relação ao doce). Os órgãos mais atingidos são o cérebro, olho, fígado, pulmão, rim e pele; o processo de gravidez também pode ser modulado. Pode implicar diminuição do número de anos de vida, do quociente de inteligência e da produtividade (14).

A nível de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), geralmente são necessários máscara [com apoio ventilatório para proteção específica para o mercúrio (22)], óculos, luvas (14) (de nitrilo ou material equivalente) (22) e fato (14) descartável e possibilidade de trocar de calçado antes de ir para casa; contudo, alguns investigadores consideram que, por vezes, pode ser baixa a eficácia dos EPIs utilizados. Parte dos funcionários precisa de formação em relação neste contexto (22).

Como Medidas de Proteção Coletiva (MPCs) é proibido comer e levar a farda para casa (14). A generalidade dos empregadores providencia as mesmas (22).

Faz-se o controlo biológico através do doseamento urinário do mercúrio (22).

-cádmio

Alguns investigadores documentaram exposição ao cádmio, através de doseamentos na pele e roupa, bem como a nível sanguíneo (9). Ele pode alterar a absorção de ferro e a sua metabolização, diminuindo o hematócrito e a hemoglobina (13).

-chumbo

A procura de chumbo aumentou dez vezes em relação à última década, sobretudo às custas da indústria de produção de baterias e nos países em desenvolvimento, onde as normas de saúde e segurança e/ou legislação são superficiais ou até inexistentes (23). A reciclagem informal de equipamentos eletrónicos é um negócio lucrativo em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento; eles fazem a desmontagem para vender partes que possam ter algum valor, como este metal pesado (12) (16). O processo de remoção nos domicílios geralmente consiste em quebrar a bateria manualmente, separando o metal do plástico e aquecendo o chumbo, sem proteção ou isolamento (23). Por isso, poderá haver até contaminação do agregado familiar (12) (23), por inalação ou ingestão (12) e de quem residir na proximidade (23). Alguns investigadores documentaram a exposição através de doseamentos na pele, roupa e sangue (9). A exposição é superior com métodos mais rudimentares de extração e com uso de calçado aberto, bem como com quanto mais tempo se passar no local de trabalho (12).

-índio

Alguns écrans “touch” poderão conter este agente (9).

-nanotubos de carbono

Nanotubos de carbono são muito usados em vários tipos de indústria (aeroespacial, automóvel, defesa, eletrónica, produção de energia e de produtos de desporto), devido às suas caraterísticas (baixo peso, boa condutividade elétrica e térmica); contudo, existem preocupações médicas e ambientais, além de que os conhecimentos neste contexto não são muito aprofundados. Em estudo com animais estão descritas alterações pulmonares (inflamação, fibrose), genotoxicidade, carcinogenicidade e stress oxidativo. As consequências dependem da morfologia, superfície, componentes metálicos, impurezas, solubilidade e agregação (24).

-fibras respiráveis

Estas podem, através da fagocitose, levar a fibrose pulmonar, cancro pulmonar e/ou mesotelioma pleural. Está descrito que o uso de EPIs atenua a exposição (24).

-agentes biológicos

As concentrações de bactérias e/ou fungos podem atingir níveis mil vezes superiores aos do ar atmosférico (8).

Na reciclagem de comida há exposição relevante a bioaerossois. Estes podem conter microrganismos vivos ou mortos, bem como esporos e substâncias libertadas pelas células, como endotoxinas, betaglicanos, exotoxinas e micotoxinas; produtos estes que podem ser tóxicos, irritantes e/ou alérgicos (8).

-ruído

Este pode ser considerável e levar a hipoacusia (2) (10), taquicardia e, secundariamente, hipertensão arterial e enfarte agudo do miocárdio. Um estudo no Gana concluiu que mais de 40% dos operadores deste setor estavam expostos a valores superiores a 85 decibéis, o que se relacionou com a taquicardia, de forma estatisticamente significativa (p < 0,001) (2).

-matéria particulada

Trata-se de uma mistura heterogénea de agentes químicos e partículas finas e/ou ultrafinas, suspensas no ar, provenientes de diversas fontes, como a combustão da biomassa em atividades no domicílio, circulação de veículos ou até proveniente das poeiras de solos e estradas. Há uma grande variabilidade na composição e tamanhos das partículas. Os principais constituintes são os nitratos, sulfatos, carbono orgânico e elementar, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, componentes biológicos (endotoxinas, fragmentos de células) e metais (ferro, cobre, níquel, zinco e vanádio). Em função do tamanho, as partículas classificam-se como inaláveis (≤10 µm- MP10) porque podem atingir os pulmões; respiráveis (≤2,5 µm- MP2.5) uma vez que podem entrar nos alvéolos e as ultrafinas (≤0,1 µm- MP0.1); quanto mais pequenas, mais tóxicas (25).

Alguns micronutrientes (inseridos numa alimentação correta) poderão atenuar a toxicidade da matéria particulada, nomeadamente a nível de cálcio, zinco e magnésio, que melhoram a função endotelial e cardiovascular. Por sua vez, o cobre, selénio, zinco e as vitaminas A, C e E podem atuar como antioxidantes e diminuir a tensão arterial. Os micronutrientes não podem ser sintetizados pelo organismo, pelo que têm de ser ingeridos (21).

A reciclagem informal de produtos elétricos liberta matéria particulada para o ar ambiente; esta, por sua vez, tem a capacidade de originar alterações cardiovasculares (hipertensão arterial, diminuição da função pulmonar, enfarte agudo do miocárdio, aterosclerose, disritmia, anemia, cancro do pulmão, inflamação/stress oxidativo) (21). Geralmente, neste contexto, não há uso de EPIs (16).

-ergonómicos

Estas tarefas geralmente implicam posturas mantidas (sentada ou de pé) e/ou forçadas, com manuseamento de cargas, por vezes; os equipamentos usados como auxílio mecânico são frequentemente rudimentares e muito gastos, o que facilmente potencia os sintomas e a patologia músculo-esquelética, bem como alguns acidentes (cortes, equimoses/contusões) (10).

Medidas de Proteção Coletiva

A absorção diminuiu com a potenciação da ventilação. A farda não deverá ser trazida para casa, nem lavada com a restante roupa. Não deverá existir cacifo único para farda e roupa pessoal; será também problemático não usar farda e/ou não tomar banho no final do turno (antes de ir para casa) (9); contudo, por vezes, nem uma correta higienização das mãos depois do turno conseguem fazer (8) (9). As pausas poderão atenuar a exposição, mas não costumam existir de forma adequada neste setor (1). Assim, os empregadores deverão fornecer farda, providenciar lavagem adequada da mesma, instalações para duche e salas para trocar de roupa, com separação entre fardas sujas e roupa pessoal. Os funcionários deverão lavar mãos e face com sabonete antes de comer, beber e sair da empresa. Contudo, alguns agentes químicos poderão não ser totalmente removido com água e sabonete (9).

Medidas de Proteção Individual

Geralmente os trabalhadores deste setor não têm acesso facilitado a EPIs (6) , como máscaras com apoio ventilatório. Os empregadores deverão fornecer farda (9) (17) e providenciar lavagem adequada da mesma (9). São desejáveis as luvas, calçado de segurança, óculos e máscara para poeiras. Contudo, por exemplo, apenas 25% dos operadores no Gana têm calçado e luvas (10). Num estudo em África do Sul verificou-se que a maioria não usa EPIs. A adesão aos EPIs é modulada pelo nível educacional (17). No Brasil encontram-se relatos destes funcionários usarem como EPIs luvas e máscaras provenientes dos detritos sólidos (4).

Por outro lado, noutros casos, os trabalhadores colocam expetativas muito elevadas na capacidade de proteção dos EPIs (14).

Acidentes de Trabalho

Estes têm uma incidência razoável (1) (5) (6) (7), até porque as condições de trabalho podem ser precárias (3). Incidem sobretudo em cortes (6) (19)/picadas, queimadura e lesões oculares; por vezes ocorrem amputações (6). As taxas de acidentes fatais e não fatais deste setor são equivalentes à indústria em geral (8). Um estudo brasileiro estimou que os indivíduos que se dedicavam a este setor apresentavam risco seis vezes superior de ter acidente de trabalho, versus o global de todos os setores profissionais (20).

Sintomas e Doenças Profissionais

São frequentes as diversas algias (91% dos trabalhadores num estudo brasileiro referiu pelo menos uma) (21), nomeadamente lombalgia/dorsalgia (16), mialgias/artralgias e astenia (1). As algias num estudo do Gana incidiram na região lombar (68%), ombros (42%), membros superiores (33%), região cervical (28%), joelho (52%) e pés/tornozelos (47%) (10).

A tosse também parece ser razoavelmente frequente nestes indivíduos, eventualmente devido à exposição por agentes químicos (detergentes, tintas, produtos associados a baterias e equipamentos elétricos, bem como solventes), além de poeiras (provenientes sobretudo da descarga e queima) e fumos. O quartzo eventualmente presente pode contribuir para a silicose, doença pulmonar crónica obstrutiva e/ou cancro do pulmão (17), ainda que pouco destacado na bibliografia consultada.

As doenças profissionais têm uma incidência razoável (1) (3) (5) (6)- (sobretudo se infeciosas/alérgicas) (6) ou eventualmente devido às posturas forçadas, movimentos repetitivos e carga de trabalho (1).  As LMEs são razoavelmente frequentes (6) (19)- principalmente nos que têm funções a nível de recolha e desmantelamento (10) e geralmente agravam-se com a idade e as más condições de trabalho (6). Um estudo brasileiro estimou que os indivíduos que se dedicavam a este setor apresentavam risco duas vezes superior de ter doença associada ao trabalho, versus o global de todos os setores profissionais (20).

Poluição ambiental

A nível de solos, o arsénio é mais relevante na China, Gana e Índia (sobretudo em locais de reciclagem abandonados). O cádmio é mais prevalente na China, Gana, Índia, Nigéria e Tailândia; os valores também são mais elevados nos locais de reciclagem já não utilizados. O país mais intoxicado com chumbo é o Uruguai, seguido do Gana, China, Tailândia, Nigéria, Índia, Vietname, Filipinas e Paquistão. O mercúrio, por sua vez, é mais abundante na China, Gana e Índia (15).

Em contexto de contaminação aquática, o arsénio tem níveis mais elevados na China, Índia, Austrália e Gana; os dois primeiros ultrapassam os limites máximos permitidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Em relação ao cádmio, as maiores concentrações existem na China, Índia, Austrália e Gana; os três primeiros excedem os pontos de corte da instituição atrás mencionada. O crómio é mais prevalente na China, Nigéria, Tailândia, Índia, Austrália e Gana; os primeiros cinco excedem o patamar atrás referido. Por sua vez, em relação ao mercúrio, a China lidera, seguida da Índia e Gana; contudo, apenas a primeira ultrapassa os limites de segurança da mesma instituição (15).

Quanto à concentração destes metais a nível de sedimentos, o arsénio está em todos os países estudados abaixo dos limites mencionados no parágrafo anterior.  O cádmio está em situação equivalente. Por sua vez, o crómio só surge em estudos chineses, mas também abaixo das guidelines. O chumbo nos sedimentos só foi estudado na China e no Vietname, também abaixo do patamar atrás considerado. Quanto ao mercúrio, por sua vez, só se encontraram investigações chinesas, também abaixo dos limites atrás descritos (15) .

 

DISCUSSÃO/ CONCLUSÃO

As particularidades do setor da Reciclagem dependem muito dos produtos reciclados em si e do contexto de trabalho, muito variável entre as diversas áreas geográficas e caraterísticas dos funcionários.

Genericamente os principais fatores de risco são os agentes químicos, como metais pesados (mercúrio, cádmio, chumbo, índio) e nanopartículas, fibras respiráveis ou matéria particulada; bem como agentes biológicos, ruido e até questões associadas ao risco ergonómico.

Estão descritos na literatura alguns dados relativos a medidas de proteção e perceção de risco, bem como acidentes de trabalho e doenças profissionais, mas trata-se de um setor pouco estudo, cujo avaliação com qualidade traria frutos, caso existisse e fosse divulgada através dos meios adequados.

 

CONFLITOS DE INTERESSE, QUESTÕES ÉTICAS E/OU LEGAIS

Nada a declarar.

 

AGRADECIMENTOS

Nada a declarar.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. R1. Moreira A, Gunther W, Siqueira C. Workers perception of hazards on recycling sorting facilities in São Paulo, Brazil. Ciências & Saúde Coletiva. 2019; 24(3): 771-780. DOI: 10.1590/1413-81232018243.01852017
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Quadro 1: Pesquisa efetuada

Motor de busca Passwords Critérios Nº de documentos obtidos Nº da pesquisa Pesquisa efetuada ou não Nº do documento na pesquisa Codificação inicial Codificação final
RCAAP Reciclagem -título e/ ou assunto

 

1261 1 Não – – –
+ riscos 0 2 Não – – –
EBSCO (CINALH, Medline, Database of Abstracts and Reviews, Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Nursing & Allied Health Collection e MedicLatina) Recycling -2013 a 2023

-acesso a resumo

-acesso a texto completo

1859 3 Não – – –
+work 212 4 Não – – –
+occupational 161 5 Não – – –
+occupational health 76 6 Sim 4

7

8

9

13

15

17

20

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Waste management 1754 7 Não – – –
+ work 204 8 Não – – –
++ occupational 161 9 1

2

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RR1

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4

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18

–

–

–

–

–

–

–

–

 

 

 

Quadro 2- Principais Fatores de Risco

Fatores de risco
-biológicos (1) (5) (8) (18) – microrganismos, insetos e roedores (5)

– bioaerossois com bactérias e fungos (8)

-mordedura (18)

-físicos -ruído (1) (2) (10) (18)

-desconforto térmico (5) (6) (7) (18) (frio, calor, humidade) (6)

-químicos (1) (2) (5) (18) Metais pesados (2) (8) (11)

-mercúrio (2) (8) (9) (10) (11) (14) (15) (22)

-cádmio (2) (10) (11) (13) (16)

-chumbo (2) (10) (12) (13) (15) (16) (23)

-antimónio (11)

-arsénio (11)

-berílio (11)

-crómio (11) (15)

-cobalto (11)

-níquel (11)

-zinco (16)

-alumínio (11)

Nanotubos de carbono (24)

Matéria particulada (16) (25)

Poeiras (18)

-ergonómicos -posturas mantida (5) (10)

-cargas (5) (10)

-mecânicos (1) -atropelamento (1)

-outros acidentes (5)

-organizacionais (5) -cargas (5)

-turnos prolongados (5)

 

 

 

(1)Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina Geral e Familiar; Mestre em Ciências do Desporto; Especialista em Medicina do Trabalho; Diretora da Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online; Técnica Superior de Segurança no Trabalho; Doutorada em Segurança e Saúde Ocupacionais. Endereços para correspondência: Rua da Varziela, 527, 4435-464 Rio Tinto. E-mail: s_monica_santos@hotmail.com. ORCID Nº 0000-0003-2516-7758

Contributo para o artigo: seleção do tema, pesquisa, seleção de artigos, redação e validação final.

(2)Armando Almeida

Escola de Enfermagem (Porto), Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa; Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde; Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional. 4420-009 Gondomar. E-mail: aalmeida@ucp.pt. ORCID Nº 0000-0002-5329-0625

Contributo para o artigo: seleção de artigos, redação e validação final.

(3)Dina Chagas

Doutorada em Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho; Pós-Graduada em Segurança e Higiene do Trabalho; Pós-Graduada em Sistemas Integrados de Gestão, Qualidade, Ambiente e Segurança. Professora convidada no ISEC Lisboa. Membro do Conselho Científico de várias revistas e tem sido convidada para fazer parte da comissão científica de congressos nos diversos domínios da saúde ocupacional e segurança do trabalho. Colabora também como revisor em várias revistas científicas. Galardoada com o 1.º prémio no concurso 2023 “Está-se Bem em SST: Participa – Inova – Entrega-Te” do projeto Safety and Health at Work Vocational Education and Training (OSHVET) da EU-OSHA.1750-142 Lisboa. E-Mail: dina.chagas2003@gmail.com. ORCID N.º 0000-0003-3135-7689.

Contributo para o artigo: seleção de artigos, redação e validação final.

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