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Estatuto editorial

Reintegração Profissional após Acidente Vascular Cerebral em idade laboral: Estudo Observacional Retrospetivo

9 Outubro, 2026Artigos Originais

Machado J, Monteiro R, Silva M, Bonito M, Araújo R. Reintegração Profissional após Acidente Vascular Cerebral em idade laboral: Estudo Observacional Retrospetivo. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2026; 22: esub0580. DOI: 10.31252/RPSO.10.102026


PROFESSIONAL REINTEGRATION AFTER STROKE IN WORKING-AGE ADULTS: A RETROSPECTIVE OBSERVATIONAL STUDY

Tipo de artigo: Artigo Original

Autores: Machado J(1), Monteiro R(2), Silva M(3), Bonito M(4), Araújo R(5)

 

RESUMO

Introdução

O regresso ao trabalho constitui um desfecho relevante em sobreviventes de Acidente Vascular Cerebral (AVC) em idade laboral, refletindo recuperação funcional e participação social. Em Portugal, os dados sobre reintegração profissional após AVC são limitados. Este estudo teve como objetivo descrever os padrões de reintegração profissional e explorar fatores associados ao regresso ao trabalho após este evento.

Métodos

Realizou-se um estudo observacional retrospetivo, incluindo sobreviventes de AVC em idade laboral, internados entre janeiro de 2020 e julho de 2022, num hospital universitário de nível terciário em Portugal. Foram incluídos indivíduos com idades entre os 16 e os 64 anos, avaliados por Medicina Física e de Reabilitação durante o internamento. O regresso ao trabalho foi avaliado aos 3, 6 e 24 meses. Analisaram-se variáveis sociodemográficas, clínicas, funcionais e relacionadas com a reabilitação, recorrendo a análise estatística descritiva e univariável.

Resultados

Dos 419 doentes avaliados, 77 cumpriram os critérios de inclusão. À data do AVC, 70% encontravam-se profissionalmente ativos. As taxas de regresso ao trabalho foram de 13% aos 3 meses, 24% aos 6 meses e 50% aos 24 meses. O regresso à atividade profissional associou-se a idade mais jovem e melhor nível funcional, avaliado pela Modified Rankin Scale. Não se observaram associações consistentes com o sexo, tipo de AVC, lateralidade da lesão, nível de escolaridade ou tipo de profissão.

Conclusões

Nesta coorte de sobreviventes de AVC em idade laboral, cerca de metade dos indivíduos previamente ativos retomou atividade profissional aos 24 meses. A reintegração profissional associou-se sobretudo à idade e ao nível funcional, reforçando a importância de abordagens de reabilitação abrangentes e a necessidade de estudos prospetivos que permitam identificar de forma robusta os determinantes do regresso ao trabalho após AVC.

PALAVRAS-CHAVE: Acidente vascular cerebral, incapacidade funcional, reabilitação, reintegração profissional, medicina do trabalho, saúde ocupacional.

 

ABSTRACT

Introduction

Return to work is a relevant outcome in working-age survivors of stroke, reflecting functional recovery and social participation. In Portugal, data on professional reintegration after stroke are limited. This study aimed to describe patterns of professional reintegration and to explore factors associated with return to work after stroke.

Methods

A retrospective observational study was conducted, including working-age stroke survivors admitted between January 2020 and July 2022 to a in Portugal. Patients aged between 16 and 64 years who were assessed by Physical and Rehabilitation Medicine during hospitalization were included. Return to work was evaluated at 3, 6, and 24 months after. Sociodemographic, clinical, functional, and rehabilitation-related variables were analyzed using descriptive and univariate statistical analysis.

Results

Of the 419 patients assessed, 77 met the inclusion criteria. At the time of stroke, 70% were professionally active. Return-to-work rates were 13% at 3 months, 24% at 6 months, and 50% at 24 months. Return to professional activity was associated with younger age and better functional level, assessed by the Modified Rankin Scale. No consistent associations were observed with sex, type of stroke, lesion laterality, educational level or type of occupation.

Conclusions

In this cohort of working-age stroke survivors, approximately half of the previously active patients returned to work within 24 months. Professional reintegration was mainly associated with age and functional level, reinforcing the importance of comprehensive rehabilitation approaches and the need for prospective studies to robustly identify factors associated with return to work after stroke.

KEYWORDS: Stroke, functional disability, rehabilitation, professional reintegration, occupational health.

 

INTRODUÇÃO

O acidente vascular cerebral (AVC) constitui uma das principais causas de morbilidade e incapacidade em adultos, com elevado impacto socioeconómico a nível mundial (1). Cerca de 31% dos doentes apresentam o primeiro episódio antes dos 65 anos, encontrando-se em idade ativa (2). Para estes indivíduos, o regresso ao trabalho assume particular relevância, quer por motivos económicos, quer pelo papel central da atividade profissional na identidade e participação social.

Apesar de muitos sobreviventes em idade laboral recuperarem a independência nas atividades de vida diária (AVD), as alterações cognitivas, emocionais e psicopatológicas persistentes, associadas a fatores contextuais e ambientais, podem comprometer a reintegração social e profissional (3). O regresso ao trabalho é frequentemente utilizado como indicador de recuperação funcional e qualidade de vida, resultando da interação de múltiplos determinantes biológicos, psicológicos, sociais e laborais, com resultados inconsistentes na literatura.

As taxas de reintegração profissional após AVC apresentam grande variabilidade na literatura (7,3%–74,5%), refletindo diferenças metodológicas, contextos sociolaborais e períodos de seguimento (4). Em Portugal, um estudo com 553 sobreviventes previamente ativos, reportou uma taxa de regresso ao trabalho de 56,6% aos 20 meses, associada a idade mais jovem, melhor funcionalidade e estatuto socioeconómico mais elevado (3).

As orientações do National Institute for Health and Care Excellence (NICE, 2023) recomendam a referenciação precoce de indivíduos previamente ativos para programas estruturados de regresso ao trabalho, com avaliação das limitações individuais e das exigências da função, bem como implementação de estratégias personalizadas e reintegração progressiva (5).

Considerando o impacto da reintegração profissional na recuperação funcional, adaptação psicossocial e participação social dos sobreviventes de AVC, torna-se essencial compreender os fatores associados ao regresso ao trabalho em contextos clínicos reais, de forma a identificar grupos com maior risco de não reintegração e potenciais alvos de intervenção (3) (6).

O presente estudo tem como objetivo caracterizar uma coorte de sobreviventes de AVC em idade laboral e analisar a reintegração profissional entre os 3 e os 24 meses após o evento. Pretende-se descrever a situação laboral pré e pós-AVC, o tempo até ao regresso à atividade profissional e explorar fatores sociodemográficos, clínicos, funcionais e relacionados com a reabilitação associados ao retorno ao trabalho.

 

METODOLOGIA

Desenho do estudo

Realizou-se um estudo observacional retrospetivo, baseado numa coorte de 419 sobreviventes de AVC, internados entre janeiro de 2020 e julho de 2022, no Serviço de Neurologia de um hospital universitário de nível terciário, localizado na região do Porto.

O diagnóstico de AVC foi estabelecido de acordo com os critérios da Organização Mundial da Saúde, posteriormente atualizados pela American Heart Association/American Stroke Association. (7)

Durante o internamento, todos os sobreviventes foram avaliados por um médico de Medicina Física e de Reabilitação, com registo da avaliação funcional inicial, definição de necessidades de reabilitação e orientação terapêutica após a alta hospitalar, sempre que clinicamente indicado.

Seleção da amostra

Critérios de inclusão: sobreviventes de AVC, profissionalmente ativos ou não ativos, com idades compreendidas entre os 16 e os 64 anos, correspondendo ao início da idade laboral e a dois anos abaixo da idade legal de reforma em Portugal.

Foram excluídos os elementos fora da idade laboral definida, com antecedentes de AVC prévio e aqueles que faleceram durante os 24 meses de seguimento após o evento índice.

Recolha de dados

Os dados foram recolhidos por dois investigadores, através da consulta do processo clínico eletrónico e da realização de entrevistas telefónicas com questionário estruturado, elaborado pelos autores e aprovado pela comissão de ética responsável. Nos casos em que o sobrevivente não apresentava capacidade para responder, a entrevista foi realizada com o cuidador informal.

Foram recolhidas informações relativas a variáveis sociodemográficas (idade e sexo), nível de escolaridade, situação profissional pré e pós-AVC, tipo de AVC, lateralidade da lesão encefálica, orientação para reabilitação após a alta hospitalar e funcionalidade.

A idade foi considerada à data do AVC. O nível de escolaridade foi categorizado por ciclos de ensino (1.º, 2.º e 3.º ciclos, ensino secundário e superior).

A situação profissional foi classificada de acordo com a Classificação Portuguesa de Profissões 2010 (CPP/2010), sendo as atividades agrupadas em dois grandes grupos ocupacionais com base na natureza predominante das exigências funcionais da profissão: profissões de natureza manual (blue-collar, grupos 6 a 9) e profissões de natureza não manual (white-collar, grupos 1 a 5) (8).

A funcionalidade foi avaliada através da Modified Rankin Scale for Neurologic Disability (mRS), utilizada para descrição do estado funcional dos doentes no período prévio ao AVC e no seguimento (9).

O regresso ao trabalho foi definido como o reinício de qualquer forma de atividade profissional remunerada, incluindo o regresso ao emprego anterior, o retorno a trabalho semelhante ou adaptado, ou o início de um novo emprego, em regime de tempo parcial ou integral. O tempo até ao regresso ao trabalho foi avaliado aos 3, 6 e 24 meses após o AVC.

Foram considerados profissionalmente ativos os sobreviventes com atividade remunerada. Foram considerados profissionalmente inativos os reformados, indivíduos em incapacidade temporária, estudantes, desempregados e pessoas a realizar exclusivamente tarefas domésticas.

Análise estatística

A análise estatística foi realizada com recurso aos softwares JMP® e Excel®. As variáveis categóricas foram descritas através de frequências absolutas e proporções. As variáveis contínuas foram descritas através de médias e desvios-padrão ou medianas, conforme apropriado.

A análise das associações entre variáveis categóricas foi realizada utilizando o teste do qui-quadrado de Pearson. Para a comparação de variáveis contínuas entre grupos foram utilizados testes paramétricos ou não paramétricos, conforme a distribuição das variáveis. A normalidade da distribuição foi avaliada por métodos gráficos e testes estatísticos de normalidade. Atendendo à natureza exploratória do estudo e à dimensão da amostra, não foram realizados modelos multivariáveis.

 

RESULTADOS

Características da amostra

A amostra final incluiu 77 sobreviventes de AVC em idade laboral, dos quais 46 (60%) eram do sexo masculino (Tabela 1). Em termos etários, 19 elementos (25%) tinham menos de 50 anos, 31 (40%) encontravam-se na faixa etária dos 50 aos 59 anos e 27 (35%) tinham idade igual ou superior a 60 anos.

Relativamente ao tipo de AVC, 58 elementos (75%) apresentaram AVC isquémico e 19 (25%) AVC hemorrágico. Quanto à lateralidade da lesão encefálica, 39 sobreviventes (51%) apresentaram lesão no hemisfério esquerdo e 37 (48%) no direito.

A maioria dos indivíduos apresentava níveis de escolaridade até ao 2.º ciclo do ensino básico (Tabela 1). Relativamente à orientação para reabilitação após a alta hospitalar, 25 elementos (32%) foram referenciados para unidades de reabilitação intensiva de Medicina Física e de Reabilitação, 8 (10%) para unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e 34 (44%) para tratamento fisiátrico em clínica. Após reabilitação funcional 1 sobrevivente foi encaminhado para programa de reabilitação profissional num centro especializado.

A funcionalidade, avaliada através da mRS, apresentou uma mediana de 0 no período prévio ao AVC e de 2 no seguimento.

Reintegração profissional

À data do AVC, 54 indivíduos (70%) encontravam-se profissionalmente ativos (Tabela 2). Aos 3 meses após o evento, 7 sobreviventes (13%) mantinham atividade profissional, aumentando para 13 (24%) aos 6 meses e para 27 elementos (50%) aos 24 meses de seguimento.

Entre os sobreviventes com AVC isquémico, 39 (67%) eram profissionalmente ativos previamente ao AVC, dos quais 21 (54%) retomaram atividade profissional aos 24 meses. No grupo com AVC hemorrágico, 15 sobreviventes (79%) encontravam-se ativos à data do evento, verificando-se manutenção da atividade profissional em 6 indivíduos (40%) aos 24 meses.

Aos 24 meses após o AVC, mantinham atividade profissional 16 sobreviventes (62%) com lesão no hemisfério cerebral esquerdo e 11 (41%) com lesão no direito.

Entre os elementos que mantiveram atividade profissional aos 24 meses, 16 (59%) eram do sexo masculino, comparativamente a 28 (52%) homens, entre os elementos profissionalmente ativos à data do evento.

Observou-se uma tendência para idades inferiores entre os indivíduos previamente ativos que retomaram atividade profissional aos 24 meses, quando comparados com os que não retomaram atividade laboral (Figura 1). Relativamente ao tipo de atividade profissional, a distribuição entre profissões de natureza manual e não manual manteve-se semelhante ao longo do seguimento (Tabela 2).

O indivíduo orientado para centro de reabilitação profissional não retomou o trabalho após conclusão do programa de reabilitação.

Os elementos que mantiveram atividade profissional apresentaram valores inferiores de mRS, quer no período prévio ao AVC, quer no seguimento, quando comparados com aqueles que não retomaram atividade profissional (Figura 2).

 

DISCUSSÃO

O presente estudo analisou os padrões de reintegração profissional em sobreviventes de AVC em idade laboral, evidenciando uma taxa de regresso ao trabalho de 50% aos 24 meses e explorando fatores associados a este desfecho.

Os resultados indicam que a reintegração profissional após o AVC permanece limitada, mesmo em indivíduos em idade ativa e com acesso a programas de reabilitação, sendo influenciada por múltiplos fatores individuais, clínicos e contextuais.

A taxa de retorno à atividade profissional aos 24 meses observada neste estudo (50%) é comparável à descrita noutros trabalhos nacionais e internacionais, nos quais se reportam valores amplamente variáveis, entre 11% e 85%, em função da população estudada, do tempo de seguimento e da definição de regresso ao trabalho (1) (3) (4) (10). Esta variabilidade reflete não só diferenças metodológicas, mas também a complexidade inerente ao processo de reintegração profissional após o AVC, que ultrapassa a recuperação funcional estritamente clínica.

No que respeita à funcionalidade, níveis funcionais mais elevados, avaliados pela mRS, associaram-se a maior probabilidade de manutenção ou regresso à atividade profissional. Contudo, este achado deve ser interpretado com prudência, uma vez que a mRS avalia predominantemente a dependência global e não capta défices cognitivos, emocionais ou comportamentais, reconhecidamente determinantes para o desempenho laboral (3). Assim, uma recuperação motora aparentemente satisfatória não garante, por si só, a reintegração profissional, sublinhando a importância de avaliações multidimensionais no planeamento da reabilitação vocacional.

Os sobreviventes que retomaram a atividade profissional apresentavam, globalmente, idades inferiores comparativamente aos que não retomaram atividade laboral, em consonância com dados previamente publicados (3). Para além de uma maior reserva funcional, este padrão poderá refletir fatores contextuais, como a proximidade da idade legal de reforma e a existência de mecanismos de proteção social, que podem influenciar a motivação e a possibilidade de regresso ao trabalho em indivíduos mais velhos (11).

Relativamente ao tipo de AVC, embora uma maior proporção de doentes com AVC hemorrágico estivesse profissionalmente ativa à data do evento, a manutenção da atividade laboral aos 24 meses foi superior naqueles com AVC isquémico. Este resultado está em linha com o pior prognóstico funcional frequentemente associado ao AVC hemorrágico, que pode traduzir-se em limitações mais persistentes e dificultar a reintegração profissional a médio prazo (12).

No que respeita ao sexo, observou-se uma maior proporção de retorno à atividade profissional entre os homens, em linha com a literatura existente (4) (13). No entanto, esta diferença deve ser interpretada com precaução, uma vez que não foram realizadas análises ajustadas que permitam excluir o efeito de potenciais fatores confundidores, como o tipo de profissão, a carga horária, as responsabilidades familiares ou o acesso a apoio informal.

Relativamente ao nível de escolaridade, observou-se uma maior proporção de indivíduos profissionalmente ativos à data do AVC nos níveis de escolaridade mais elevados, em concordância com estudos prévios (14) (15). Contudo, esta associação não se manteve aos 24 meses após o evento e não se verificou diferenças relevantes na taxa de retorno ao trabalho entre profissões de natureza manual e não manual. Estes resultados sugerem que, nesta amostra, a escolaridade e o tipo de profissão não constituíram determinantes independentes da reintegração profissional a médio prazo.

Relativamente à lateralidade da lesão encefálica, apesar de uma proporção semelhante de indivíduos profissionalmente ativos à data do AVC, observou-se uma maior taxa de manutenção da atividade profissional aos 24 meses nos sobreviventes com lesão do hemisfério esquerdo. Este achado poderá relacionar-se com diferentes perfis de défices neurológicos, nomeadamente alterações cognitivas e visuo-espaciais associadas a lesões do hemisfério direito, com impacto funcional potencialmente relevante no contexto laboral (16). Ainda assim, a lateralidade da lesão, isoladamente, não deve ser interpretada como um determinante independente do regresso ao trabalho.

Por fim, apesar da elevada proporção de indivíduos referenciados para programas de reabilitação após a alta hospitalar, a taxa de retorno ao trabalho aos 24 meses manteve-se limitada, sugerindo que a reabilitação convencional, isoladamente, poderá não responder plenamente às exigências específicas da reintegração profissional. Verificou-se ainda que o único doente orientado para um programa de reabilitação profissional em centro especializado não retomou a atividade laboral durante o período de seguimento. Estes dados reforçam a necessidade de programas de reabilitação vocacional estruturados, multidisciplinares e orientados para o contexto laboral.

 

LIMITAÇÕES DO ESTUDO

O presente estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos seus resultados. Trata-se de um estudo observacional retrospetivo, baseado numa amostra relativamente reduzida, o que limita a robustez estatística das análises e impediu a realização de modelos multivariáveis ajustados para potenciais fatores confundidores, nomeadamente a gravidade do AVC, o tipo de reabilitação ou o contexto sociolaboral.

A amostra incluiu exclusivamente indivíduos internados e avaliados em contexto hospitalar, o que poderá ter introduzido um viés de seleção, excluindo sobreviventes mais jovens ou com défices menos graves, habitualmente associados a maior probabilidade de regresso ao trabalho. Este aspeto deve ser tido em conta na generalização dos resultados a populações mais amplas de sobreviventes de AVC (3). Acresce que a exclusão de doentes que faleceram durante o período de seguimento poderá ter introduzido viés de sobrevivência, condicionando a interpretação das taxas de regresso ao trabalho.

A ausência de registos clínicos uniformes impossibilitou a recolha de indicadores objetivos de gravidade do AVC, como a pontuação na NIHSS, bem como informação detalhada sobre os tratamentos realizados na fase aguda, fatores reconhecidamente associados ao prognóstico funcional e ao regresso ao trabalho (1) (2) (4).

Adicionalmente, o impacto cognitivo e emocional não foi avaliado de forma sistemática, apesar do seu papel determinante na reintegração profissional, mesmo em doentes com recuperação motora considerada satisfatória (17). De igual modo, a funcionalidade foi avaliada exclusivamente através da mRS, uma escala amplamente utilizada, mas limitada na identificação de défices mais subtis e relevantes para o desempenho laboral (2) (3). Acresce que a ausência de um momento temporal uniformizado para a avaliação da mRS ao longo do seguimento limita a interpretação da relação entre funcionalidade, recuperação e reintegração profissional.

Por fim, não foi possível obter informação detalhada sobre a intensidade, duração e adesão aos programas de reabilitação, nem sobre fatores contextuais como o apoio familiar e o estatuto socioeconómico, reconhecidamente associados à reintegração profissional após AVC (18).

Importa ainda salientar que a amostra incluiu indivíduos com e sem atividade profissional prévia ao AVC, o que introduz alguma heterogeneidade na análise da reintegração profissional. No entanto, esta opção metodológica permitiu uma caracterização mais abrangente da população em idade laboral acompanhada em contexto clínico real, refletindo a diversidade de trajetórias profissionais antes do evento. Embora o cálculo das taxas de regresso ao trabalho tenha sido realizado exclusivamente com base nos elementos previamente ativos, a inclusão de indivíduos inativos poderá limitar a comparabilidade direta com outros estudos, mas contribuiu para uma melhor compreensão do impacto do AVC na situação laboral desta população.

Apesar destas limitações, o presente estudo contribui para uma melhor compreensão dos fatores associados ao regresso ao trabalho após AVC em idade laboral, identificando áreas críticas para intervenção futura e reforçando a necessidade de abordagens de reabilitação vocacional mais abrangentes e individualizadas.

 

CONCLUSÃO

O presente estudo caracteriza a reintegração profissional em sobreviventes de acidente vascular cerebral em idade laboral, acompanhados após internamento hospitalar, demonstrando que cerca de metade dos indivíduos previamente ativos retomou atividade profissional aos 24 meses após o evento. O regresso ao trabalho foi mais frequente em elementos mais jovens e com melhor nível funcional, enquanto outros fatores sociodemográficos e clínicos apresentaram associações menos consistentes.

Os resultados reforçam a complexidade do processo de reintegração profissional após o AVC, sublinhando que a recuperação motora, avaliada por escalas funcionais globais, é necessária, mas não suficiente para garantir o regresso ao trabalho. Défices cognitivos, emocionais e fatores contextuais, não avaliados de forma sistemática neste estudo, poderão desempenhar um papel determinante neste processo.

Apesar das limitações inerentes ao desenho retrospetivo e à dimensão da amostra, os resultados obtidos são concordantes com a literatura nacional e internacional e reforçam a necessidade de abordagens de reabilitação mais abrangentes, integrando avaliação funcional multidimensional e apoio vocacional individualizado. Estudos prospetivos, com amostras mais representativas e análises ajustadas, serão fundamentais para identificar de forma mais robusta os determinantes da reintegração profissional após AVC e orientar estratégias de intervenção mais eficazes.

 

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declaram a inexistência de conflitos de interesse na realização do presente trabalho.

Não existiram fontes externas de financiamento para a realização deste artigo.

Os autores declaram ter seguido os protocolos da sua instituição acerca da publicação dos dados de doentes. Proteção de Pessoas e Animais: Os autores declaram que os procedimentos seguidos estavam de acordo com os regulamentos estabelecidos pela Comissão de Ética responsável e de acordo com a Declaração de Helsínquia revista em 2024 e da Associação Médica Mundial.

 

BIBLIOGRAFIA

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  8. Instituto Nacional de Estatística (INE). 2011. Classificação Portuguesa das Profissões 2010. Lisboa: INE. [Disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpgid=ine_main&xpid=INE].
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Tabela 1 – Características sociodemográficas, clínicas e profissionais da amostra (n=77)

n (%)
Sexo
Masculino 46 59,7
Feminino 31 40,3
Idade (à data do AVC)
<50 anos 19 24,7
50-59 31 40,3
>59 27 35,1
Escolaridade
1º ciclo 21 27,3
2º ciclo 25 32,5
3º ciclo 13 16,9
Ensino secundário 6 7,8
Ensino superior 12 15,6
Tipo de AVC
Isquémico 58 75,3
Hemorrágico 19 24,7
Lateralidade da lesão
Esquerda 37 48,1
Direita 39 50,6
Orientação para reabilitação
Sem critérios 10 13,0
Clínica Fisiátrica 34 44,2
Internamento Unidade de MFR 25 32,5
RNCCI 8 10,4
Orientação para reabilitação profissional 1 1,3
Categoria profissional
White collar 26 48,1
Blue collar 28 51,9

 

Tabela 2 – Situação profissional antes e após o AVC

  n (%)
Status profissional pré-AVC
Ativo 54 70,1
Não ativo 23 29,9
Status profissional 3 meses após AVC
Ativo 7 9,1
Não ativo 70 90,9
Status profissional 6 meses após AVC
Ativo 13 16,9
Não ativo 64 83,1
Status profissional 24 meses após AVC
Ativo 27 35,1
Não ativo 50 64,9

 

 

 

 

 

(1)João Machado

Mestrado Integrado em Medicina, 2014 a 2020, Nova Medical School em Lisboa; Internato de Formação Geral, 2021, Unidade Local de Saúde de Santo António (ULSSA) no Porto; Internato de Formação Específica em Medicina Física e de Reabilitação (MFR), 2022 até à atualidade, ULSSA; Pós-graduação em Medicina Desportiva, 2021-2022, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP); Pós Graduação em Ecografia para Reabilitação, 2025-2026, Sociedad Española de Rehabilitación y Medicina. MORADA COMPLETA: Rua Maria de Sousa, 339, 3.4, 4250-552 Porto. E-MAIL: u14190@chporto.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0000-4995-5690

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Contribuição para a conceção e redação do trabalho. Recolha de dados. Redação do artigo. Análise e interpretação dos dados. Revisão crítica e aprovação final da versão a ser publicada.

(2)Rodrigo Monteiro

Mestrado Integrado em Medicina, 2016 a 2022, FMUP; Internato de Formação Geral, 2023, Unidade Local de Saúde de Viseu Dão-Lafões, Viseu; Internato de Formação Específica em MFR, 2024-2025, ULSSA; Pós-graduação em Medicina Desportiva, 2024-2025, FMUP. 4050-011 Porto. E-MAIL: rodrigomonteiro1622@gmail.com

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(3)Marta Silva

Mestrado Integrado em Medicina, 2014 a 2020, FMUP; Internato de Formação Geral, 2021, Unidade Local de Saúde do Nordeste, Bragança; Internato de Formação Específica em MFR, 2022 até à atualidade, ULSSA; Pós-graduação em Medicina Desportiva, 2022-2023, FMUP. 4050-011Vila do Conde. E-MAIL: martaamoreiradasilva@gmail.com

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(4)Maria Bonito

Mestrado Integrado em Medicina, 2015 a 2021, Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Internato de Formação Geral, 2022, Unidade Local de Saúde do Algarve, Portimão; Internato de Formação Específica em MFR, 2023 até à atualidade, ULSSA; Pós-graduação em Medicina Desportiva, 2024-2025, FMUP. 4050-011Gondomar. E-MAIL: mariainesbonito@gmail.com

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(5)Raquel Araújo

Internato de Formação Específica em Medicina Física e de Reabilitação, 2018-2023, ULSSA; Pós-graduação em Medicina Desportiva, 2018-2019, FMUP; Pós-graduação em Medicina da Dor, 2021-2022. Médica Assistente de MFR, 2024 até atualidade, ULSSA; Responsável pela consulta de Reabilitação pós-AVC na ULSSA. 4050-011 Porto. E-MAIL: raquelaraujo.fisiatria@ulssa.min-saude.pt

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