FERTILITY AND PREGNANCY IN OCCUPATIONAL HEALTH
TIPO DE ARTIGO: Resumo de trabalho divulgado noutro contexto
AUTORES: Santos M(1), Almeida A(2).
INTRODUÇÃO
A infertilidade tem aumentado progressivamente ao longo dos últimos anos; algumas das teorias explicativas para tal destacam o papel que determinados fatores de risco ocupacionais poderão ter nesse contexto, por vezes não devidamente esclarecidos entre as entidades empregadoras e trabalhadores. Uma vez atingida a fecundação, existem também circunstâncias laborais que podem condicionar a evolução da gravidez, em algumas situações de forma grave, supõe-se.
CONTEÚDO
Fertilidade
Infertilidade pode ser definida como a ausência de gravidez após 12 meses de atividade sexual frequente e sem contraceção; acredita-se que atinge presentemente 15% dos casais. Ao longo das décadas a percentagem de espermatozóides (quer totais, quer viáveis) diminuiu bastante, pelo que o que hoje se considera “estatisticamente normal” é matematicamente muito inferior ao passado. Acredita-se que tal se possa relacionar com exposições ambientais e/ou ocupacionais a agentes químicos, radiações ou até a diferenças térmicas.
A nível de estudos laborais encontram-se trabalhos que associam a infertilidade masculina à exposição a solventes, chumbo, pesticidas, gasolina. Presentemente, várias profissões exigem a postura sentada mantida, o que implica o aumento da temperatura testicular e, eventualmente, menor fertilidade, segundo alguns autores; tal como profissões executadas em ambientes quentes. Se também existir trabalho com computador, para além das variáveis já mencionadas, a radiação do mesmo pode alterar as defesas antioxidantes e, indiretamente, alterar também a fertilidade masculina.
A dessincronização cronobiológica também poderá ser mais um fator contributivo para o mesmo resultado; facilmente atingida em alguns trabalhadores que, por exemplo, façam turnos noturnos, sobretudo rotativos.
O stress laboral também aumenta a libertação de catecolaminas (que interferem com a frequência cardíaca, tensão arterial e secreções hormonais). Aliás este pode não só alterar diretamente a fertilidade como diminuir a libido e/ou a capacidade de desempenho sexual, fatores esses que, obviamente, também diminuem a fecundidade do casal.
Quanto à infertilidade feminina alguns autores defendem que esta se relaciona mais com a idade mais avançada em que a trabalhadora tenta engravidar, do que propriamente com as exposições laborais. Alguns investigadores acreditam que, apesar de suspeitos, poucos são os agentes químicos cuja interação com a fertilidade está devidamente demonstrada, destacando-se neste contexto o chumbo, mercúrio, manganês, dissulfito de carbono, bromopropano e o dibromocloropropano. Outros exemplos neste âmbito são a exposição ao cádmio e ao manganês, que associa-se a alterações hormonais, em ambos os sexos.
O crómio, arsénio, mercúrio e chumbo também perturbam a espermatogénese.
Estudos epidemiológicos em agricultores demonstraram que nesta classe profissional existe maior prevalência de alterações espermáticas (a nível de concentração e morfologia). Os agentes químicos nesta área profissional entram em contato com o organismo através das vias cutânea, inalatória e, eventualmente, digestiva também. A sua concentração é geralmente mais elevada quando são utilizados em recintos fechados, como é o caso das estufas (aqui, frequentemente, são ultrapassados os limites de exposição estipulados na legislação). Para além disso, alguns pesticidas transformam-se em compostos mais tóxicos após a sua aplicação, na própria planta, pelo que a toxicidade fica ainda mais potenciada.
Gravidez
Quanto à gravidez em si, a percentagem de mulheres que trabalha presentemente é muito superior à que existia no passado, pelo que agora é mais frequente a exposição das grávidas aos riscos laborais, mesmo no terceiro trimestre (devido a questões profissionais e económicas).
Alguns estudos realizados em cabeleireiras, por exemplo, demonstraram existir maior prevalência de aborto espontâneo, bem como de malformações.
A exposição ao cádmio em trabalhadoras durante a gravidez associa-se a bebés de baixo peso, maior número de abortos e/ou a partos pré-termo. Ao arsénio, por sua vez, também se atribuem maiores prevalências de malformações, aborto e atraso do crescimento. O chumbo pode alterar o crescimento ósseo durante a gestação, uma vez que compete com o cálcio; alterando também a síntese de colagénio.
Nos filhos descendentes de mães agricultoras, são mais frequentes algumas malformações, como a fenda palatina e alterações do sistema nervoso central. Parece também existir um atraso de crescimento intra-uterino. Nestes também parecem ser mais frequentes os nados-mortos, não só nos agricultores em si, mas também nos residentes nas proximidades das áreas de cultivo.
A hipertermia materna pode implicar aborto, atraso de crescimento ou até maior incidência de malformações, sobretudo a nível do sistema nervoso central. A sensibilidade do feto varia com a fase gestacional e celular, ou seja, durante a proliferação e migração, a vulnerabilidade é maior. Contudo, a maioria dos estudos é realizada em animais, pelo que a extrapolação de dados para os humanos não pode ser linear. Alguns autores comparam mesmo os efeitos do calor para o feto aos causados pelas radiações. A temperatura fetal é diretamente proporcional à materna, uma vez que o feto não tem qualquer capacidade de a controlar autonomamente.
O stress laboral aumenta a libertação de catecolaminas que, por sua vez, podem aumentar a contratilidade uterina e, eventualmente, diminuir a circulação sanguínea placentar. Pode assim associar-se a maior risco de parto pré-termo.
O aborto espontâneo e/ou o baixo peso ao nascer estão também associados a cargas moderadas a elevadas e/ou frequentes, bem como postura de pé mantida e a turnos noturnos e/ou prolongados, tal como ao ruído. As cargas também estão associadas a maior risco de parto pré-termo. Atividade física laboral intensa globalmente (cargas e não só) está associada a baixo peso ao nascer, período gestacional mais curto, atraso de crescimento intra-uterino, aborto e malformações.
No caso dos profissionais de saúde, só o simples manuseamento de alguns fármacos (como os citostáticos, ou seja, para tratamento oncológico) aumentam o risco de aborto. Há que destacar ainda, nestes profissionais, os agentes infeciosos, manuseamento de cargas e o stress. Dentro dos primeiros dar-se-á particular destaque aos agentes responsáveis pela meningite, citomegalovírus, varicela, sarampo, giardia, tuberculose e aos vírus causadores da hepatite (sobretudo A, B e C). O risco é ainda mais pertinente nos serviços de Pediatria, dada a facilidade de contato com fluidos contaminados; neste contexto destacam-se a shigella, campilobacter, parvovírus e o rotavírus. Nestes profissionais o maior risco infecioso (pela incidência e pela ausência de vacina) é o citomegalovírus, dado ser facilmente transmitido pela saliva e urina, podendo causar no feto alterações da audição e visão, bem como atraso no desenvolvimento intelectual. A varicela, por sua vez, se contraída durante a gravidez, pode levar a malformações graves (a nível dos membros, face e sistema nervoso central). De realçar contudo que, melhores técnicas de trabalho (como higiene correta das mãos e uso de luvas), diminuem muito a incidência de infeções.
Algumas profissões apresentam vibrações; estas têm consequências negativas para a gravidez, sobretudo quando são recebidas na posição sentada mantida.
Para além disso, alguns investigadores defendem que os fatores de risco laborais podem ser mais nocivos do que aparentam, uma vez que as grávidas trabalhadoras estarão com maior probabilidade inseridas num sistema prestador de cuidados de saúde, serão mais jovens e saudáveis (por comparação com a população em geral) e terão um melhor nível de vida global.
CONCLUSÕES
Provavelmente, os resultados contraditórios entre diversos estudos podem ser explicados pela diferente qualidade metodológica, além de que, por questões éticas óbvias, não podem ser desenhadas investigações de causa-efeito, onde se exporia propositadamente um trabalhador a algum elemento suspeito de constituir um risco, quer para a fertilidade, quer para a gravidez. Para além disso, na generalidade das situações interagirão, provavelmente, várias variáveis interdependentes, além que a suscetibilidade individual varia muito.
Ainda assim, existem numerosas condições para as quais muitos investigadores consideram como provada ou provável a associação lesiva, pelo que as entidades empregadoras e funcionários deveriam estar informados acerca desta temática.
BIBLIOGRAFIA
Santos M, Almeida A. Interações entre a fertilidade/ gravidez e as caraterísticas do posto de trabalho. Segurança. 2013, maio- junho, 214, 24-27.
[1] Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina Geral e Familiar; Mestre em Ciências do Desporto; Especialista em Medicina do Trabalho; Presentemente a exercer nas empresas Medicisforma, Clinae, Servinecra e Serviço Intermédico; Diretora Clínica da empresa Quercia; Diretora da Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line; Endereços para correspondência: Rua Agostinho Fernando Oliveira Guedes, 42 4420-009 Gondomar; s_monica_santos@hotmail.com.
[2] Mestre em Enfermagem Avançada; Especialista em Enfermagem Comunitária; Pós-graduado em Supervisão Clínica e em Sistemas de Informação em Enfermagem; Docente na Escola de Enfermagem, Instituto da Ciências da Saúde- Porto, da Universidade Católica Portuguesa; Diretor Adjunto da Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line; aalmeida@porto.ucp.pt
Santos M, Almeida A. Fertilidade e Gravidez versus Saúde Laboral. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line. 2016, volume 2, s66-s69. DOI:10.31252/RPSO.20.07.2016








