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Estatuto editorial

Determinantes Laborais e Sociodemográficos do Consumo Tabágico em Trabalhadores Hospitalares

3 Julho, 2026Artigos Originais

Botelho-Rodrigues G, Beleza M, Lagarto M, Silva L, Cruz D, van Beveren P, Oliveira-Silva J, Afonso A, Antunes I. Determinantes Laborais e Sociodemográficos do Consumo Tabágico em Trabalhadores Hospitalares. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2026; 21; esub0568. DOI: 10.31252/RPSO.03.07.2026

SOCIODEMOGRAPHIC AND OCCUPATIONAL DETERMINANTS OF TOBACCO USE AMONG HEALTHCARE WORKERS

 

TIPO DE ARTIGO: Artigo Original

Autores: Botelho-Rodrigues G(1), Beleza M(2(, Lagarto M(3), Silva L(4), Cruz D(5), van Beveren P(6), Oliveira-Silva J(7), Afonso A(8), Antunes I(9).

 

RESUMO

Introdução

O tabagismo é um dos principais fatores evitáveis de morbimortalidade. A sua prevalência entre profissionais de saúde é elevada, estimada em 20% em países desenvolvidos com base em estudos heterogéneos e dificilmente comparáveis. O consumo neste grupo pode pôr em causa o seu papel enquanto “modelo comportamental”, sendo os seus determinantes e padrões, em grande parte, desconhecidos.

Objetivos

Identificar determinantes sociodemográficos e laborais do tabagismo e carga tabágica em profissionais de saúde hospitalares, caracterizar eventuais barreiras para a cessação tabágica, esclarecendo qual o papel que os serviços de Saúde Ocupacional podem assumir neste domínio em matéria de promoção da saúde.

Materiais e Métodos

Estudo transversal observacional realizado num hospital terciário português, incluindo 1115 trabalhadores de vários serviços. Foram recolhidos dados sociodemográficos, laborais (grupo profissional, serviço, trabalho por turnos e número de turnos noturnos/mês) e clínicos (índice de massa corporal, hipertensão arterial). Os determinantes do tabagismo foram avaliados e ajustados para os confundidores com a regressão logística penalizada de Firth, a carga tabágica nos fumadores com regressão linear múltipla e a associação entre consumo tabágico e hipertensão arterial com regressão logística binária. A significância foi fixada em 0,05 e a análise estatística realizada no software R4.4.2.

Resultados e Discussão

A prevalência de fumadores na amostra foi de 16,2%. A idade foi o único determinante do tabagismo estatisticamente significativo (OR=0,98, p=0,045), mais prevalente entre trabalhadores mais jovens. Observaram-se tendências não-significativas para maior prevalência entre assistentes operacionais e menor em trabalhadores do Serviço de Neurologia. Entre fumadores, a carga tabágica foi superior em enfermeiros, assistentes operacionais e assistentes técnicos comparativamente aos médicos (p<0,01). O tabagismo não se associou independentemente à hipertensão arterial, enquanto idade, índice de massa corporal e sexo apresentaram associações significativas. A maioria dos fumadores fumava no horário laboral (77%), tinha as pausas e stresse laboral como principais incentivos, revelava uma elevada dependência nicotínica e baixa motivação para a cessação.

Conclusão

Os determinantes individuais (idade) revelaram uma preponderância face aos laborais. Tal poderá ser a causa da maior eficácia de programas de intervenção para a cessação tabágica em contexto laboral focados no indivíduo, comparativamente aos que incidem apenas sobre fatores organizacionais. Com base nos resultados deste estudo, a abordagem dos serviços de Saúde Ocupacional deverá enquadrar sempre a intervenção individual, como a intervenção breve para a cessação tabágica nos momentos de vigilância de saúde com eventual referenciação para consulta especializada, conjugando intervenções organizacionais, mas nunca as implementando de forma isolada; uma vez que funcionários mais saudáveis serão mais produtivos e apresentarão maior satisfação laboral.

PALAVRAS-CHAVE: tabagismo; profissionais de saúde; determinantes laborais; determinantes sociodemográficos; cessação tabágica.

ABSTRACT

Introduction

Smoking is one of the leading preventable causes of morbidity and mortality. Its prevalence among healthcare workers is high, estimated at around 20% in developed countries, based on heterogeneous and scarcely comparable studies. Smoking in this group may undermine their role as behavioural role models, while its determinants and patterns remain largely unknown.

Objectives

To identify sociodemographic and occupational determinants of smoking and smoking burden among hospital healthcare workers; to characterise potential barriers to smoking cessation; and to clarify the role that Occupational Health departments may play in health promotion in this area.

Materials and Methods

A cross-sectional observational study was conducted in a tertiary Portuguese hospital, including 1,115 workers from various departments. Sociodemographic, occupational (professional group, department, shift work and number of night shifts per month) and clinical data (body mass index, arterial hypertension) were collected. Determinants of smoking were assessed and adjusted for confounders using Firth’s penalised logistic regression; smoking burden among smokers was analysed using multiple linear regression; and the association between smoking and arterial hypertension was evaluated using binary logistic regression. Statistical significance was set at 0.05, and analyses were performed using R software version 4.4.2.

Results and Discussion

The prevalence of smokers in the sample was 16.2%. Age was the only statistically significant determinant of smoking (OR = 0.98, p = 0.045), with higher prevalence among younger workers. Non-significant trends were observed towards higher prevalence among nursing assistants and lower prevalence among workers in the Neurology Department. Among smokers, smoking burden was higher in nurses, nursing assistants and technical assistants compared with physicians (p < 0.01). Smoking was not independently associated with arterial hypertension, whereas age, body mass index and sex showed significant associations. Most smokers reported smoking during working hours (77%), with work breaks and occupational stress identified as the main incentives. High nicotine dependence and low motivation to quit were also observed.

Conclusion

Individual determinants, particularly age, appeared to outweigh occupational factors. This may explain the greater effectiveness of workplace smoking cessation interventions that focus on the individual, compared with those targeting organisational factors alone. Based on the findings of this study, interventions delivered by Occupational Health departments should consistently incorporate individual approaches, such as brief smoking cessation interventions during routine health surveillance with potential referral to specialised care, alongside organisational measures, which should not be implemented in isolation; because healthier employees will be more productive and will have greater job satisfaction.

KEYWORDS: smoking; healthcare workers; occupational determinants; sociodemographic determinants; smoking cessation.

INTRODUÇÃO/ENQUADRAMENTO

O tabaco é responsável por mais de 7 milhões de mortes anuais, incluindo 1,6 milhões imputáveis à exposição passiva, e cerca de 80% dos fumadores vivem em países subdesenvolvidos, refletindo a influência dos níveis de desenvolvimento nos padrões globais de consumo (1).

A prevalência de tabagismo em profissionais de saúde (PS) e, sobretudo, os determinantes do consumo tabágico são, em grande parte, desconhecidos. Tal é particularmente grave, tendo em conta o papel de “modelo” para a população geral que, segundo a Organização Mundial de Saúde, os PS devem desempenhar ao nível de comportamentos em saúde e, particularmente, no consumo tabágico (2).

A metanálise mais abrangente sobre consumo tabágico em PS apurou uma prevalência de tabagismo de 20% em países desenvolvidos (variabilidade extrema entre estudos, I2=99,6%) (3).

Poucos determinantes de consumo tabágico se afirmam significativos em estudos individuais e praticamente nenhum se mantém significativo em metanálises, à exceção do sexo e do grupo profissional: o consumo é mais elevado em homens (24 versus 19% em mulheres), máximo em enfermeiros (24%) e mínimo em farmacêuticos (14%) (3). Alguns estudos destacam o maior consumo tabágico entre jovens, entre os trabalhadores com menor escolaridade e nos com condição socioeconómica mais desfavorecida (4) (5) (6).

A relação entre o stresse laboral e o consumo tabágico em PS é controversa. Uma correlação positiva foi encontrada nalguns casos (7), sendo sugerido que o tabaco poderá funcionar como mecanismo de coping (8). Outro estudo apenas confirmou uma relação entre stresse e dependência nicotínica no subgrupo das mulheres (9). Uma metanálise exclusivamente sobre enfermeiros refere como principal dúvida neste campo o facto de não haver evidência de que o início de funções provoque o início do consumo tabágico (10), contrariamente ao que parece acontecer no ensino pré-graduado de enfermagem.

Os padrões de consumo nos cursos universitários de Saúde poderão influenciar a prevalência de tabagismo nos PS ativos: em estudantes de cursos de saúde, esta assume valores significativos, mas muito variáveis entre estudos. Um padrão de aumento no primeiro ano de curso e subsequente decréscimo da proporção até ao último ano parece ser transversal aos poucos estudos realizados, atingindo valores tão altos como 55% em estudantes de enfermagem do 1º ano em Portugal (11) (12).

Os dados disponíveis sobre tabagismo em PS portugueses são escassos e resultam de estudos antigos. Um estudo realizado em 2004, abrangendo apenas médicos e enfermeiros, apurou uma prevalência de fumadores de 20,5%, valor superior ao da população geral, com diferenças entre sexos significativas (28,4 em homens e 16,3% em mulheres) (13). Em inquéritos realizados no início da década de 1980, no mesmo hospital onde decorreu o presente estudo, o número de fumadores era extremamente elevado, atingindo cerca de 51% em médicos e 50% em enfermeiros, valores também superiores aos da população geral na altura (14) (15). Num estudo recente que incluiu apenas enfermeiros dos cuidados de saúde primários, verificou-se uma prevalência de tabagismo de 19% (16).

Os programas de cessação tabágica no local de trabalho são eficazes, de forma semelhante aos que têm lugar nos cuidados de saúde, desde que envolvam intervenções individuais (17). Incidindo especificamente sobre programas de cessação em profissionais de saúde, uma metanálise revelou um taxa global de sucesso de 21%, sendo eficazes as intervenções baseadas, seja em estratégias farmacológicas, seja em comportamentais (18). O return on investment para os hospitais de programas de cessação em PS foi estimado em 1,9% e verificou-se uma redução do absentismo entre os trabalhadores que deixaram de fumar (19).

A grande heterogeneidade metodológica dos estudos existentes sobre o tabagismo em PS limita francamente a sua comparabilidade. A marcada variabilidade na prevalência e padrões de consumo de forma transversal entre países e, de forma longitudinal, ao longo dos anos, torna virtualmente impossível aplicar os resultados existentes sobre determinantes sociodemográficos e laborais do tabagismo num contexto de ação concreto.

OBJETIVOS

De forma a compreender qual o papel que os serviços de saúde ocupacional (SSO) podem ter no controlo do tabagismo em PS, foi desenhado um estudo com o objetivo primário de identificar determinantes sociodemográficos e laborais do tabagismo em PS hospitalares. Como objetivos secundários, pretendeu-se identificar os determinantes da carga tabágica entre fumadores, a relação entre tabagismo e a hipertensão arterial (HTA) e a existência de entraves para a cessação tabágica.

METODOLOGIA

Foi realizado um estudo transversal observacional num grande hospital português. Foi utilizada uma amostra não-probabilística de trabalhadores de serviços representativos de diversas realidades hospitalares. Foram recolhidos, através das bases de dados do SSO de referência, dados sociodemográficos (sexo e idade), laborais (grupo profissional, serviço, trabalho por turnos e número de turnos noturnos/mês) e clínicos (IMC, hipertensão arterial), com a variável principal “ser fumador (sim/não)”. Foi realizada uma entrevista semiestruturada a um subgrupo de fumadores abordando a existência de entraves para a cessação tabágica. Os dados foram irreversivelmente anonimizados desde o início e foi utilizada estatística agregada, com small cell supression para contagens ≤5.

Os determinantes do tabagismo foram avaliados ajustando para os confundidores com a regressão logística penalizada de Firth, a carga tabágica nos fumadores com regressão linear múltipla e a associação entre tabagismo e HTA com regressão logística binária. A significância foi fixada em 0,05. A análise estatística foi realizada no software R (versão 4.4.2, R Core Team, 2024).

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 1115 trabalhadores e dos serviços de Urgência, Medicina Intensiva, Farmácia, Patologia Clínica, Ortopedia, Neurologia e Serviço de Transportes (descrição detalhada da amostra na Tabela 1). A prevalência global de fumadores na amostra foi de 16,2% (n=181).

Determinantes do Tabagismo

A idade afirmou-se como o único determinante com associação estatisticamente significativa ao tabagismo, na análise multivariada controlando as variáveis confundidoras (sexo, grupo profissional, serviço e número de turnos noturnos). O efeito estimado indica que trabalhadores mais jovens apresentaram maior probabilidade de serem fumadores (OR=0,98; IC95%: 0,96–0,999; p=0,045), refletindo um gradiente etário claro.

Entre os restantes determinantes, nenhum se assumiu como estatisticamente significativo, embora tenham sido observadas tendências relevantes. Comparativamente aos médicos, os assistentes operacionais apresentaram uma probabilidade quase duplicada de fumar (OR=1,95; p=0,064). Entre os serviços analisados, os trabalhadores do serviço de Neurologia apresentaram uma menor probabilidade de fumar (OR=0,35; p=0,083). Os restantes determinantes não demonstraram nenhum efeito significativo ou tendencial. A representação do modelo multivariado é feita na Figura 1.

Carga Tabágica

A carga tabágica foi quantificada em unidade maço-ano (UMA) e avaliada num subgrupo de 133 dos 181 fumadores, com média de 10,9 UMA ± 6,9. O grupo profissional e a idade foram os determinantes mais fortes da carga tabágica. Comparativamente com os médicos, os enfermeiros (B=10,81; p=0,006), assistentes operacionais (B=13,42; p=0,001) e assistentes técnicos (B=16,60; p=0,003) tiveram cargas tabágicas superiores, de forma independente dos restantes determinantes. Os técnicos superiores não apresentaram diferenças significativas. O aumento da idade associou-se a uma maior carga tabágica (B=0,53; p<0,001).

Verificou-se uma tendência estatisticamente não-significativa para uma maior carga tabágica entre os trabalhadores do serviço de Transportes e Viaturas (B=10,16; p=0,097). A Figura 2 destaca os principais resultados relativos à carga tabágica.

Hipertensão Arterial

O tabagismo não se associou de forma independente à presença de HTA (OR=1,37; IC95%: 0,91–2,02; p=0,122) através de regressão logística ajustada para idade, sexo e IMC.

Pelo contrário, verificou-se uma associação significativa entre a HTA e a idade, associada a um aumento contínuo do risco (OR=1,05; p<0,001), o IMC, com efeito incremental significativo (OR=1,06; p<0,001) e o sexo masculino como fator protetor (OR=0,42; p<0,001).

Motivações e Cessação Tabágica

Recorrendo a uma entrevista semiestruturada, foi feita uma análise da motivação e barreiras para a cessação num subgrupo de fumadores (n=34), todos utilizadores de tabaco de combustão. A média de consumo de cigarros por dia foi de dez e o score médio do questionário de Fagerström foi de cinco, correspondendo a uma dependência nicotínica elevada. A maioria (77%) afirmava que fumava dentro do horário de trabalho, sendo que 65% consumia a maioria do tabaco durante este período. Os momentos de pausa foram considerados o estímulo mais forte para o consumo tabágico (referido por 53%).

Quanto aos estádios de mudança, tomando por base o Modelo Transteórico da Mudança (20), 59% encontravam-se em estádio de pé-contemplação, 29% de contemplação e 12% de preparação (Figura 3). A motivação mediana para a cessação foi de 3 (escala de 1 a 10). Os principais motivos referidos para a consumo tabágico foram, entre os laborais, a sua relevância para o alívio do stresse e, entre os pessoais, a falta de motivação.

Numa análise de um subgrupo de fumadores que já tinham tentado deixar de fumar (n=48), os que tinham recorrido a apoio em consulta especializada de cessação tabágica e utilizado medicação eram significativamente mais jovens, apresentando uma idade mediana de 31 anos, comparativamente aos 54 anos entre os que não procuraram estes apoios (p = 0,002).

DISCUSSÃO

A idade emergiu como único determinante estatisticamente significativo do tabagismo, com maior consumo entre trabalhadores mais jovens. Este achado é consistente com alguns dados da literatura, que referem que a idade mais jovem é um dos principais preditores de tabagismo entre PS, eventualmente associada a experimentação precoce, menor carga de doença e maior vulnerabilidade a fatores contextuais (6). O decréscimo da prevalência com a idade poderá surgir, também, numa continuidade do que já acontece desde os primeiros anos de estudos pré-graduados em saúde, onde se registam os consumos elevados já referidos que decrescem nos anos subsequentes (11) (12).

O menor consumo tabágico entre médicos e técnicos superiores e a tendência para maior uso em assistentes operacionais foram, também, encontrados num estudo realizado no norte de Itália (21). Vários estudos europeus descrevem uma maior prevalência de tabagismo em grupos profissionais com menores qualificações, nos quais poderão enquadrar-se os assistentes operacionais (4) (22).

Não existem dados que permitam comparar a tendência verificada para um menor consumo tabágico entre os trabalhadores do Serviço de Neurologia. Poder-se-á colocar a hipótese de que, pelo facto de lidarem diariamente com as consequências neurológicas graves dos eventos cerebrovasculares para os quais o tabaco é um fator de risco, nomeadamente o elevado número de doentes com acidente vascular cerebral, estejam mais alerta para os riscos do tabagismo.

Embora o presente estudo não tenha sido desenhado para a determinação de prevalência, o valor apurado de 16,2% é ligeiramente inferior à média estimada para países desenvolvidos (20%), devendo este ser encarado com reserva devido à elevada heterogeneidade dos estudos que estão na base do seu cálculo (3).

Verificou-se uma relação entre uma maior carga tabágica e uma idade mais avançada, o que era expectável, tendo em conta que o seu cálculo inclui como variável a idade. O maior consumo tabágico observado em pessoal não-médico está bem descrito na literatura (4) (21) (22).

A associação entre o tabagismo e a HTA é controversa: se é claro que o consumo de tabaco faz aumentar a tensão arterial no dia a dia, o seu papel a longo prazo como causa independente de HTA permanece difícil de estabelecer (23). A associação detetada entre a HTA, uma idade mais avançada e um IMC mais elevado já está bem descrita, apresentando uma correlação linear, enquanto a influência do sexo é mais variável: até aos 60 anos tende a ser mais prevalente entre homens e, depois, mais prevalente entre mulheres (23).

A proporção de PS que fuma durante o horário de trabalho (77%) foi francamente superior àquela encontrada por Tumolo et al. (42%) (22), mas exatamente sobreponível à do único estudo a nível nacional que avaliou este aspeto (13). Contrariamente aos achados deste último estudo, a dependência nicotínica dos PS no nosso estudo foi elevada e a motivação para a cessação era baixa.

O encarar do tabaco como um escape ao stresse vai ao encontro de alguns dados publicados, que associam maiores consumos tabágicos a PS com níveis de stresse e ansiedade mais elevados (7) (8).

Apesar dos esforços para encontrar realidades comparáveis à portuguesa, as comparações no âmbito deste trabalho devem ser encaradas com reserva, dada a muito elevada heterogeneidade dos estudos que já foi referida (3). O cariz multifatorial do consumo tabágico é denotado, também, pelo reduzido número de determinantes do tabagismo com significância estatística após análise multivariada: a maioria dos fatores que parecem significativos na análise univariada preliminar deixam de o ser quando se controlam potenciais confundidores, à semelhança do que acontece de forma clara noutros estudos (21), reiterando a relevância da análise estatística cuidada.

LIMITAÇÕES

O presente estudo recorreu a uma amostra que, embora seja abrangente e diversificada, é não-probabilística. Apesar do esforço para incluir PS de realidades hospitalares diversas, é necessária precaução ao generalizar os resultados. Sendo um estudo transversal, as associações encontradas não permitem inferir causalidade.

CONCLUSÕES

Foi possível individualizar determinantes individuais (idade) e laborais (grupo profissional) do tabagismo, embora os primeiros pareçam ter tido um maior peso. Esta preponderância dos determinantes individuais pode fundamentar, pelo menos parcialmente, a maior eficácia de programas de intervenção para a cessação tabágica focados no indivíduo, comparativamente aos que incidem unicamente sobre fatores organizacionais.

Com base nos resultados deste estudo, propõe-se que a abordagem SSO priorize a intervenção individual breve para a cessação tabágica durante os exames de saúde, mantendo a sensibilidade para o enquadramento laboral do trabalhador. As intervenções como foco em aspetos organizacionais poderão ser incluídas, não devendo ser realizadas de forma isolada. Alguns fatores laborais, como o grupo profissional, revelaram tendências não estatisticamente significativas, pelo que ulteriores estudos poderão esclarecer de forma relevante o seu papel enquanto determinantes do tabagismo.

CONFLITOS DE INTERESSES

Sem conflitos de interesses a declarar.

OUTRAS QUESTÕES ÉTICAS E/OU LEGAIS

Nada a declarar.

AGRADECIMENTOS

A todos os colaboradores neste projeto de investigação.

BIBLIOGRAFIA

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Tabela 1 – Caraterísticas da amostra.

Amostra
Idade média ± σ, (min-máx.) 46,4 ± 11,1 (21-72)
Sexo (feminino), n (%) 787 (70,8)
Grupo Profissional, n (%)
     Enfermeiro 440 (39,5)
     Assistente Operacional 285 (25,6)
     Técnico Superior 177 (15,9)
     Médico 138 (12,4)
     Assistente Técnico 74 (6,6)
Serviço, n (%)
     Urgência 253 (22,7)
     Neurologia 202 (18,1)
     Medicina Intensiva 253 (17,6)
     Ortopedia 170 (15,3)
     Farmácia 130 (11,7)
     Patologia Clínica 125 (11,2)
     Transportes e Viaturas 38 (3,4)
Total (%) 1115 (100)

Figura 2 – Determinantes da carga tabágica, segundo o modelo multivariado.

Figura 3 – Distribuição do subgrupo de fumadores pelos estádios de cessação tabágica, segundo o Modelo Transteórico de Mudança (20).

(1)Gonçalo Botelho-Rodrigues

Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade de Lisboa. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Mestre em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. MORADA COMPLETA PARA CORRESPONDÊNCIA DOS LEITORES: Serviço de Saúde Ocupacional, Praceta Professor Mota Pinto, Celas, 3004-561 Coimbra. E-MAIL: goncalo.b.rodrigues@outlook.com. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0004-1542-8787

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Autor principal do artigo – Conceptualização, Investigação, Curadoria de dados, Análise formal, Metodologia, Redação do manuscrito inicial, Gestão do projeto

(2)Mário Beleza

Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade do Porto. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Pós-graduado em Medicina Desportiva pela Universidade do Porto. Competência em Avaliação do Dano Corporal pela OM. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 17785@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0000-1743-2297

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Autor principal do artigo – Conceptualização, Investigação, Curadoria de dados, Análise formal, Metodologia, Redação do manuscrito inicial, Gestão do projeto (contribuição semelhante, ordenado por senioridade)

(3)Mariana Lagarto

Médica Interna de Formação Especializada em Pneumologia na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Assistente Convidada na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade Nova de Lisboa. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 19001@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0003-5327-2085

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautora – Conceptualização, Investigação, Curadoria de dados, Análise formal

(4)Luís Silva

Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade da Beira Interior. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 17784@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID (CASO EXISTA): https://orcid.org/0009-0007-5957-9685

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautor – Investigação, Curadoria de dados

(5)Diogo Cruz

Médico Interno de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade do Minho. Pós-graduado em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 19023@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0009-0006-5731-5574

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautor – Investigação, Curadoria de dados

(6)Patrícia van Beveren

Médica Interna de Formação Especializada em Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Medicina pela Universidade de Coimbra. Pós-graduada em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 19007@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6532-3340

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautora – Investigação, Curadoria de dados

(7)Joana Oliveira-Silva

Médica do Trabalho independente. Especialista em Medicina do Trabalho. Mestre em Medicina pela Universidade de Lisboa. Mestre em Estatística para a Saúde pela Universidade Nova de Lisboa. Pós-graduada em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. 7800-001 Beja. E-MAIL PARA CORRESPONDÊNCIA DOS LEITORES: jmrfos@gmail.com. Nº ORCID (CASO EXISTA): https://orcid.org/0000-0002-3925-242X

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautora – Análise formal, Metodologia, Validação, Revisão e Edição do manuscrito

(8)Alexandre Afonso

Assistente Hospitalar de Medicina do Trabalho na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Especialista em Medicina do Trabalho. Mestre em Medicina pela Universidade de Coimbra. Pós-graduado e Mestre em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Competência em Avaliação do Dano Corporal. Competência em Medicina Social. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: 11376@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID (CASO EXISTA): https://orcid.org/0000-0002-4841-7599

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautor – Supervisão, Validação, Revisão e Edição do manuscrito

(9)Isabel Antunes

Assistente Graduada Sénior de Medicina do Trabalho e Diretora do Serviço de Saúde Ocupacional da Unidade Local de Saúde de Coimbra. Mestre em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra. Competência em Avaliação do Dano Corporal. Competência em Medicina Social. 3004-561 Coimbra. E-MAIL: isantunes@ulscoimbra.min-saude.pt. Nº ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9557-0572

-CONTRIBUIÇÃO PARA O ARTIGO: Coautora – Supervisão, Validação, Revisão e Edição do manuscrito

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