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Estatuto editorial

Saúde e Segurança Ocupacionais aplicadas a Agentes Funerários

10 Abril, 2026Artigos da Equipa Técnica, Artigos de Revisão

Santos M, Almeida A, Chagas D. Saúde e Segurança Ocupacionais aplicadas a Agentes Funerários. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2026; 21: esub0554. DOI: 31252/RPSO.11.04.2026

OCCUPATIONAL HEALTH AND SAFETY APPLIED TO FUNERAL AGENTS

 

TIPO DE ARTIGO: Artigo de Revisão

 

AUTORES: Santos M(1), Almeida A(2), Chagas D(3).

 

RESUMO

Introdução/enquadramento/objetivos

Os profissionais a exercer nesta área estão sujeitos a inúmeros fatores de risco laboral, parte dos quais eventualmente muito relevante. Contudo, a bibliografia sobre o tema não é muito abundante, pelo que poderão existir diversos profissionais com poucos conhecimentos neste contexto. Pretende-se com esta revisão assinalar o que de mais importante se publicou neste sentido.

Metodologia

Trata-se de uma Revisão Bibliográfica, iniciada através de uma pesquisa realizada em agosto de 2025 nas bases de dados “CINALH plus with full text, Medline with full text, Database of Abstracts of Reviews of Effects, Cochrane Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Cochrane Methodology Register, Nursing and Allied Health Collection: comprehensive, MedicLatina e RCAAP”.

Conteúdo

As práticas funerárias geralmente não apresentam normas/guidelines.

A preservação/conservação do cadáver exige conhecimentos técnicos específicos e, por vezes, os trabalhadores iniciam funções sem experiência, ou sequer formação teórica.

As funções/tarefas podem incluir entrevistar os familiares, buscar e preparar o cadáver para o velório e enterro, permitindo a conservação suficiente para que se consiga executar os rituais funerários; providenciar o transporte hospital/morgue/domicílio e/ou casa mortuária; organizar o funeral em si (para os familiares/amigos e fazer a interação com os trabalhadores do cemitério e/ou crematório); coordenar a vertente floral; cumprir as questões legais e/ou dar informações sobre eventuais apoios financeiros.

Discussão e Conclusões

Na bibliografia selecionada foram destacados os fatores de risco psicossociais, biológicos e químicos; de forma muito sumária foram mencionados também a parte ergonómica (sobretudo em relação a cargas), desconforto térmico e turnos noturnos/irregulares e/ou prolongados. Nenhum dos trabalhos selecionados mencionou detalhes relativos à sinistralidade, ainda que se possa supor que o mais relevante se possa associar a corte/perfuração, queda ao mesmo nível e a níveis diferentes e eventuais roturas tendinosas.

Por sua vez, também não foi dado destaque a doenças profissionais; além das implícitas resultantes dos agentes biológicos, os autores supõem que aqui se possa considerar patologia musculoesquelética. Em relação à dimensão química, tal dependerá dos agentes etiológicos específicos.

Por fim, em relação a medidas de proteção, alguns artigos mencionam sumariamente a necessidade de formação global e específica, até para maior adesão às normas; mas nada está descrito relativo a rotatividade de tarefas com fatores de risco diferentes, troca por agentes químicos menos tóxicos, nem organização de turnos de forma a interferir o menos possível com os ritmos circadianos e vida pessoal/familiar. Quanto aos equipamentos de proteção individual, estes são designados de forma sucinta, sem especificar modelos e/ou materiais eventualmente mais adequados.

Seria relevante conhecer melhor a realidade portuguesa, estudando algumas empresas do setor e publicando os resultados obtidos, de forma a colmatar algumas das lacunas existentes na bibliografia internacional.

Palavras-chave: agente funerário, enterro, saúde ocupacional, medicina do trabalho, enfermagem do trabalho e segurança no trabalho.

                                                                                                            

ABSTRACT

Introduction/Framework/Objectives

Professionals working in this field are subject to numerous occupational risk factors, some of which may be highly relevant. However, the literature on the topic is scarce, meaning many professionals may have limited knowledge in this context. This review aims to highlight the most important publications in this area.

Methodology

This is a literature review, initiated through a search conducted in 2024 in the databases “CINALH plus with full text, Medline with full text, Database of Abstracts of Reviews of Effects, Cochrane Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Cochrane Methodology Register, Nursing and Allied Health Collection: comprehensive, MedicLatina, and RCAAP.”

Content

Funeral practices generally lack standards/guidelines.

The preservation/conservation of a corpse requires specific technical knowledge, and sometimes workers begin their duties without experience or even theoretical training.

Duties/tasks may include interviewing family members; retrieving and preparing the corpse for the wake and burial, ensuring sufficient preservation for the funeral rites; arranging transportation from the hospital/morgue/home; organizing the funeral itself (for family members/friends and interacting with cemetery and/or crematorium staff); coordinating floral arrangements; complying with legal requirements and/or providing information on possible financial support.

Discussion and Conclusions

The selected bibliography highlighted psychosocial, biological, and chemical risk factors; and very briefly mentioned ergonomic aspects (especially regarding loads), thermal discomfort, and night/irregular and/or prolonged shifts. None of the selected papers mentioned details regarding accident types or rates, although it can be assumed that the most relevant are associated with cuts/punctures, falls from the same or different levels, and possible tendon ruptures.

Occupational diseases were also not highlighted; beyond the implicit results of biological agents, the authors assume that musculoskeletal pathology can be considered here. Regarding the chemical dimension, this will depend on the specific etiological agent.

Finally, regarding protective measures, some articles briefly mention the need for comprehensive and specific training, giving that greater adherence to regulations; but no article describes the rotation of tasks with different risk factors, switching to less toxic chemical agents, or organizing shifts to minimize interference with circadian rhythms and personal/family life. As for personal protective equipment, these are described succinctly, without specifying potentially more suitable models and/or materials. It would be important to better understand the portuguese reality, study some companies in the sector, and publish the results to fill some of the gaps in the international literature.

KEYWORDS: funeral agents, burial, occupational health, occupational medicine, occupational nursing, and workplace safety.

 

 

INTRODUÇÃO

Os funcionários a exercer nesta área estão sujeitos a inúmeros fatores de risco laboral, parte dos quais eventualmente muito relevantes, em determinadas circunstâncias. Contudo, a bibliografia sobre o tema não é muito abundante, pelo que poderão existir diversos profissionais com poucos conhecimentos neste contexto. Pretende-se com esta revisão assinalar o que de mais importante se publicou, no sentido de atenuar tal situação.

 

METODOLOGIA

Em função da metodologia PICo, foram considerados:

–P (population): trabalhadores do setor funerário

–I (interest): reunir conhecimentos relevantes sobre os principais variáveis associadas à saúde e segurança ocupacionais destes profissionais

–C (context): saúde e segurança ocupacionais aplicadas a agentes mortuários

Assim, a pergunta protocolar será: quais os principais fatores de risco/riscos laborais, medidas de proteção coletiva e individual, bem como doenças profissionais e acidentes de trabalho destes funcionários?

Foi realizada uma pesquisa em agosto de 2025 nas bases de dados “CINALH plus with full text, Medline with full text, Database of Abstracts of Reviews of Effects, Cochrane Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Cochrane Methodology Register, Nursing and Allied Health Collection: comprehensive, MedicLatina e RCAAP”.

No quadro 1 podem ser consultadas as palavras-chave utilizadas nas bases de dados. No quadro 2 estão resumidas as caraterísticas metodológicas dos artigos selecionados.

 

CONTEÚDO

Tarefas laborais

As práticas funerárias geralmente não apresentam normas/guidelines (1).

A preservação/conservação do cadáver exige conhecimentos técnicos específicos e, por vezes, os trabalhadores iniciam funções sem experiência, ou sequer formação teórica (2).

As funções/tarefas podem incluir:

-entrevistar os familiares (1)

-buscar e preparar o cadáver para o velório e enterro (1) (2), permitindo a conservação suficiente para que se consiga executar os rituais funerários

-providenciar o transporte hospital/morgue/casa mortuária e/ou domicílio  (1) (2).

-organizar o funeral em si (para os familiares/amigos e fazer a interação com os trabalhadores do cemitério e/ou crematório) (1)

-coordenar a vertente floral (1)

-cumprir as questões legais (1) e/ou

-dar informações sobre eventuais apoios financeiros (3).

Os rituais pós-morte são relevantes em algumas comunidades, uma vez que parte acredita que destes depende a possibilidade de o morto descansar em paz, para além de que um funeral sofisticado simbolizará status e riqueza, pelo que alguns poderão tomar decisões pouco racionais e/ou muito dispendiosas. Na China, por exemplo, onde tal mentalidade existe, surgiu a inovação de ter assistentes sociais a trabalhar com as empresas funerárias. Estas podem recomendar grupos de apoio emocional- por exemplo, para quem tiver filhos dependentes e/ou haja risco de suicídio e organizam funerais para indivíduos que não tenham os corpos reclamados. Para além disso, elas também circulam por escolas para falar da sua experiência profissional, com o objetivo da população ter melhor capacidade de lidar com a morte e de valorizarem mais a vida. Por vezes, requisitam voluntários para auxiliarem nas tarefas. Contudo, como este serviço é razoavelmente recente, algumas podem se sentir inexperientes/inseguras; além de que, em alguns casos, são mesmo recém-licenciadas e mais facilmente arranjam emprego neste contexto, pouco valorizado socialmente. Por vezes, o local de trabalho, pela proximidade com os funcionários da agência funerária, poderá criar algumas situações desconfortáveis, por eventuais conflitos de interesse. Para além disso, os seus papeis podem não estar totalmente claros, mesmo para os funcionários da agência funerária (3).

Constituição da equipa de trabalho

Geralmente nestas empresas há um elemento que coordena (diretor funerário) e os colaboradores, que executam as tarefas (1).

Fatores de risco/ Riscos laborais

Este setor não é muito estudado em contexto ocupacional (4). Para além disso, os fatores de risco/riscos laborais e etapas variam consoante os rituais religiosos, culturais, étnicos, área geográfica, fatores económicos e atitudes (1).

Agentes biológicos

Estes profissionais têm risco biológico (2) (5). Eles necessitam de formação neste contexto, sobretudo quando muito agressivos (nomeadamente em áreas geográficas onde podem existir casos de Ébola ou febre de Lassa, por exemplo) (6). Alguns países necessitam de normas oficiais relativas à higienização dos equipamentos e métodos de descarte. Por isso, dependendo da forma de trabalhar em relações e métodos de descarte), a presença de um estabelecimento deste setor poderá implicar riscos para a comunidade também (5).

O risco biológico neste setor incide sobretudo no que se pode transmitir através do contato com os fluidos corporais do cadáver, inclusive proveniente do aparelho respiratório (6). Os microrganismos podem ser transmitidos então pela inalação de fluidos corporais aerossolizados, inoculação direta ou transmissão mucocutânea (5).

Segundo a bibliografia consultada, alguns exemplos serão o estafilocos aureus resistente à meticilina, hepatites B e C, priões, HIV, micobactéria da tuberculose e ébola (5). Contudo, de realçar que, por exemplo, o HIV é muito suscetível a pequenas variações de ph e temperatura, pelo que se torna difícil perceber como um cadáver conseguirá manter este microrganismo viável e capaz de infetar.

Agentes químicos

A preparação do cadáver envolve a remoção do sangue e gases, com injeção posterior de líquidos desinfetantes e conservantes, inicialmente arsénio e mercúrio, com percentagens personalizadas entre cada profissional. O formaldeído é usado neste setor desde cerca de 1900; a exposição a longo prazo é bastante relevante nestes profissionais e este ainda é usado presentemente, ainda que em menores concentrações; está classificado pela IARC como sendo cancerígeno para humanos (grupo I), sobretudo a nível de orofaringe e leucemias; o risco é modulado pela duração, intensidade e frequência da exposição; em relação às consequências da exposição crónica a longo prazo, não existe muita bibliografia publicada (7). Contudo, a generalidade dos líquidos para preservar apresenta toxicidade (2).

Ergonómicos

Existem também exigências físicas, associadas a posturas forçadas/mantidas, queda ao mesmo nível e a níveis diferentes (1), para além de cargas (1) (2) (como colocar o corpo dentro do saco (1), por vezes de obesos mórbidos (1) (2) e em contexto domiciliário, ou seja, sem apoio mecânico) (1).

Desconforto térmico

Alguns autores também mencionam este parâmetro (1).

Turnos prolongados, noturnos e/ou irregulares

Os turnos podem ser irregulares e/ou prolongados, o que pode dificultar a coordenação com a vida pessoal e/ou familiar (1). O setor chamou mais à atenção na fase COVID, devido, entre vários fatores, ao aumento da carga de trabalho (8).

Riscos psicossociais

O risco psicossocial associa-se à pressão laboral; em alguns funcionários este pode ser mais relevante que o global dos riscos físicos (8); contudo, a maioria das investigações deste setor incide no risco físico/biológico (4). Neste setor há contato constante com a morte e o sofrimento (4) (8) e deles é exigido compaixão (4). O processo de morte em si já pode ser traumatizante e entrar em conflito com alguns pré-conceitos do indivíduo (1).

Algumas caraterísticas do trabalho, associadas a poucos recursos para lidar com elas, poderão fazer com que surjam consequências negativas para a saúde, segurança e bem-estar destes trabalhadores. Alguns funcionários poderão não ter coping/estratégias suficientemente desenvolvidos para lidar com o burnout (1) (4), não sabendo como pedir ajuda (1).

A sociedade em geral considera que trabalhar neste setor é desagradável e agradece que alguém o faça (1); é considerado um emprego pouco atraente (2). Parte da comunidade ocidental receia a sujidade/toxicidade dos cadáveres, daí existir alguma repulsa e estigmatização deste setor (4). Contudo, tanto podem ser discriminados pelo tipo de trabalho, como até serem vistos como aqueles que conseguem ganhar dinheiro à custa do sofrimento dos familiares e/ou amigos do morto. Com este pouco reconhecimento social, poderá ser difícil encontrar quem queira trabalhar nesta área (1). Estes funcionários vivenciam situações de sofrimento e não têm o mesmo retorno social que, por exemplo, bombeiros e profissionais de saúde (4).

A forma como lidam com os restos humanos também tem exigências culturais variáveis, globalmente sendo necessário respeito e sensibilidade (1); o que, por sua vez, poderá exigir esforço emocional; se não existirem recursos para tal, poderá surgir mal-estar (8).

Para além disso, geralmente estes funcionários apresentam pouco controlo das suas condições de trabalho, sobretudo a nível de interação com os familiares e em contexto de esforço físico. Podem assim surgir mal-estar, astenia e alterações do sono, ansiedade, depressão e até alterações cardiovasculares (1), segundo alguns investigadores.

Entre os funcionários, aqueles que lidam frequentemente com os cadáveres, apresentam menos danos emocionais do que aqueles que o fazem esporadicamente. Quanto maior for a exposição à morte, maior poderá ser a sua aceitação e ser vista como menos assustadora, diminuindo a ansiedade, ou seja, passarem a ver a mesma com mais naturalidade e encararem a sua profissão como um serviço útil e necessário, conseguindo atenuar a dor dos familiares e amigos, se fizerem um trabalho que estes considerem adequado e ainda contribuindo para o seu crescimento pessoal (8). Ainda assim, no entanto, estatisticamente, estes funcionários com maior probabilidade apresentam burnout, ansiedade (2) (8), depressão e referem estigmatização profissional (8).

A criação de grupos de ajuda, constituídos por funcionários deste setor, poderá ser útil a quem se sentir mais penalizado, de forma a potenciar estratégias de coping (8). Por vezes há incivilidade (por exemplo, das chefias) (4).

As assistentes sociais a exercer neste setor também poderão dar apoio aos trabalhadores destas empresas, sobretudo em relação a sentimentos de solidão, discriminação socioprofissional, ansiedade e baixa autoestima (3).

A falta de promoção/progressão na carreira também não é um aspeto positivo (2).

Risco de acidente

O risco de acidente laboral, com algumas destas caraterísticas, também fica potenciado (1), ainda que não se tenha selecionado bibliografia que tenha fornecido detalhes mais específicos.

Medidas de proteção

-coletivas

A formação (1) (2) (6) e o esclarecimento das expetativas versus realidade poderão atenuar as consequências, tal como a criação e cumprimento de normas/orientações (1), mais completas e abrangentes, elaboradas a nível nacional, bem como formação e fiscalização de cumprimento (6). Em países menos desenvolvidos há menor rigor nas tarefas, menos normas e, geralmente, piores condições de trabalho. Ter menos conhecimentos poderá implicar menor adesão às medidas de prevenção (2).

-individuais

O empregador deverá providenciar, pelo menos, luvas, galochas, aventais, máscaras e casacos (5).

Num estudo norte-americano, menos de 60% destes trabalhadores afirmou ter normas para seleção/uso de EPIs e apenas cerca de 40% referiu vigilância em relação ao cumprimento. Mais de metade não usava proteção respiratória e apenas menos de metade tinha protocolos para uma correta higienização das mãos (6).

Num estudo sul africano, por exemplo, 70% destes profissionais referiu já ter estado exposto a projeções de fluidos corporais durante a preparação dos cadáveres; nessa amostra 95% afirmou usar luvas; contudo, o uso de viseiras, óculos ou aventais era muito inferior. Noutro estudo mencionado pelos mesmos autores, 30 e 50% mencionou cortes e perfurações (5).

 

DISCUSSÃO/ CONCLUSÃO

Na bibliografia selecionada foram destacados os fatores de risco psicossociais, biológicos e químicos; de forma muito sumária foram mencionados também a parte ergonómica (sobretudo em relação a cargas), desconforto térmico e turnos noturnos/irregulares e/ou prolongados. Nenhum dos trabalhos selecionados mencionou detalhes relativos à sinistralidade, ainda que se possa supor que o mais relevante se associa a corte/perfuração, queda ao mesmo nível e a níveis diferentes e eventuais roturas tendinosas.

Por usa vez, também não foi dado destaque a doenças profissionais; além das implícitas resultantes dos agentes biológicos, os autores supõem que aqui se possa considerar patologia musculoesquelética. Em relação à dimensão química, tal dependerá dos agentes etiológicos específicos.

Por fim, em relação a medidas de proteção, alguns artigos mencionam sumariamente a necessidade de formação global e específica, até para maior adesão às normas; mas nada está descrito acerca da rotatividade de tarefas com fatores de risco diferentes, troca por agentes químicos menos tóxicos, nem organização de turnos de forma a interferir o menos possível com os ritmos circadianos e vida pessoal/familiar. Quanto aos equipamentos de proteção individual, estes são designados de forma sucinta, sem especificar modelos e/ou materiais eventualmente mais adequados.

Seria relevante conhecer melhor a realidade portuguesa, estudo algumas empresas do setor e publicando os resultados obtidos, de forma a colmatar algumas das lacunas existentes na bibliografia internacional.

 

CONFLITOS DE INTERESSE, QUESTÕES ÉTICAS E/OU LEGAIS

Nada a declarar.

 

AGRADECIMENTOS

Nada a declarar.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. F1. Roche N, Darzins S, Stuckey R. Funeral Industry workers: work health and safety in Australia and Ireland. 2024; 89(3): 873-894. DOI: 10.1177/00302228221075289
  2. F5. Dartey A, Akortiakumah J, Titiati P, Kwao E, Nyande F. Work conditions of the Mortuary Attendant in Ghana: a qualitative study. Inquery: The Journal of Health Care Organization, Provision and Financing. 2021; 58: 1-10. DOI: 10.1177/00469580211060263
  3. F6. Huang Y, Tan W, Tsang A. Social Work in a Funeral Home, a unique chinese practice? OMEGA- Journal of Death and Dying. 2021; 83(3): 488-499. DOI: 10.1177/0030222818820423
  4. F7. Guidetti G, Grandi A, Converso D, Bosco N, Fantinelli S, Zito M et al. Funeral and Mortuary operators: the role of stigma, incivility, work meaning fulness and work-family relation to explain occupational burnout. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2022; 18: 6691. DOI: 10.3390/ijerph18136691
  5. F8. Ringane A, Milovanovic M, Maphakula D, Makete F, Omar T, Martinson N et al. An observational study of safe and risky practices in funeral homes in South Africa. South African Medical Journal. 2019; 109(8): 587-591. DOI: 10, 7196/SAMJ.2019.v109i8.13523
  6. F3. Le A, Witter L, Herstein J, Jelden K, Begin E, Gibbs S et al. A gap analysis of the United States death care sector to determine training and education needs pertaining to highly infectious disease mitigation and management. Journal of Occupational and Environmental Hygiene. 2017; 14(9): 674-680. DOI: 10.1080/15459624
  7. F4. Allen L, Hamaji C, Allen H, Parker G, Ennis J, Kreider M. Assessment of formaldeíde exposures under comtemporary embalmimg conditions in US funeral homes. Journal of Occupational and Environmental Hygiene. 2022; 19(7): 425-436. DOI: 10.1080/15459624.2022.20776861
  8. F2. Guidetti G, Grandi A, Converso D, Colombo L. Exposure to death and bereavement: an analysis of the Occupational and Psychological well-beeing of feneral and morturary operators. OMEGA- Journal of Death and Dying. 2025; 90(4): 1936-1950. DOI: 10.1177/00302228221130611

 

 

 

Quadro 1: Pesquisa efetuada

Motor de busca Password Critérios Nº de documentos obtidos Nº da pesquisa Pesquisa efetuada ou não Nº do documento na pesquisa Codificação inicial Codificação final
RCAAP Agentes funerários -título e/ ou assunto

 

3 1 Sim 1 R1 –
Funeral 57 2 Sim – – –
Cangalheiros 0 3 Não – – –
EBSCO (CINALH, Medline, Database of Abstracts and Reviews, Central Register of Controlled Trials, Cochrane Database of Systematic Reviews, Nursing & Allied Health Collection e MedicLatina) -2013 a 2023

-acesso a resumo

-acesso a texto completo

Funeral industry 4 95 1

5

8

26

36

69

94

95

F1

F2

F3

F4

F5

F6

F7

F9

1

8

6

7

2

3

4

5

Funeral workers 5 2 2 F10 –

 

 

 

Quadro 2: Caraterização metodológica dos artigos selecionados

Artigo Caraterização metodológica País Resumo
1-F1 Austrália Artigo original Este projeto avaliou o impacto e orientação da morte em agentes funerários australianos e irlandeses, através de entrevista a 45 participantes. Os funcionários que participaram destacaram a pressão laboral, competição e cansaço, especificando conflitos entre as capacidades individuais, exigências laborais e recursos, referindo que tal implicava alterações do sono e stress. Funerais mais sofisticados e a necessidade de demonstrar respeito pelo cadáver também apresentam impacto negativo.
2-F5 Gana Esta investigação pretendeu analisar as tarefas e exigências laborais neste setor, em contexto nacional, numa amostra de 97 elementos, com entrevistas semiestruturadas.

Os autores recomendaram não só processos de recrutamento mais criteriosos, como organização de formação adequada.

3-F6 China Artigo de opinião O artigo em causa descreve a introdução inovadora das assistentes sociais nas agências funerárias, descrevendo as tarefas que estas poderão executar neste contexto.
4-F7 Itália Artigo original O projeto aqui inserido teve como objetivo estudar a estigmatização, incivilidade, significado do trabalho, burnout e interação com a família; através de um questionário aplicado a 229 funcionários em diversos locais do setor global ferroviário.

Conclui-se que o burnout era modulado pela estigmatização, incivilidade das chefias e conflito familiar.

5-F8 África do Sul Os autores destacaram o risco biológico, tendo abarcado observação das técnicas de trabalho e medidas de proteção, numa amostra de vinte profissionais.

Percebeu-se que nem todos usavam EPIs, havendo maior adesão para as luvas, aventais e máscara; não se constatou o uso de calçado impermeável ou manguitos.

Neste contexto nacional não existem normas para orientar as tarefas de descarte dos resíduos/materiais utilizados.

6-F3 EUA Os dados foram obtidos através de um questionário eletrónico, numa amostra de 424 unidades, com destaque para o risco biológico.

Apenas 1/3 referiu ter formação neste contexto e mais de 40% não estava informado sobre as vias de transmissão de, por exemplo, algumas febres hemorrágicas víricas.

7-F4 Esta investigação incidiu no risco associado ao uso de formaldeído, através de doseamentos efetuados em 13 empresas do setor, permitindo orientar melhor algumas medidas de proteção.
8-F2 Itália Neste projeto foi dado realce ao risco psicossocial, relacionado com a proximidade da morte, através de 201 questionários.

Concluiu-se que funcionários com maior contato com a morte apresentavam menos dificuldades do que aqueles que apenas o fazem esporadicamente.

 

 

 

 

(1)Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina Geral e Familiar; Mestre em Ciências do Desporto; Especialista em Medicina do Trabalho; Diretora da Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online; Técnica Superior de Segurança no Trabalho; Doutorada em Segurança e Saúde Ocupacionais. Endereços para correspondência: Rua da Varziela, 527, 4435-464 Rio Tinto. E-mail: s_monica_santos@hotmail.com. ORCID Nº 0000-0003-2516-7758

Contributo para o artigo: seleção do tema, pesquisa, seleção de artigos, redação e validação final.

(2)Armando Almeida

Escola de Enfermagem (Porto), Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa; Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde; Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional. 4420-009 Gondomar. E-mail: aalmeida@ucp.pt. ORCID Nº 0000-0002-5329-0625

Contributo para o artigo: seleção de artigos, redação e validação final.

(3)Dina Chagas

Doutorada em Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho; Pós-Graduada em Segurança e Higiene do Trabalho; Pós-Graduada em Sistemas Integrados de Gestão, Qualidade, Ambiente e Segurança. Professora convidada no ISEC Lisboa. Membro do Conselho Científico de várias revistas e tem sido convidada para fazer parte da comissão científica de congressos nos diversos domínios da saúde ocupacional e segurança do trabalho. Colabora também como revisor em várias revistas científicas. Galardoada com o 1.º prémio no concurso 2023 “Está-se Bem em SST: Participa – Inova – Entrega-Te” do projeto Safety and Health at Work Vocational Education and Training (OSHVET) da EU-OSHA.1750-142 Lisboa. E-Mail: dina.chagas2003@gmail.com. ORCID N.º 0000-0003-3135-7689.

Contributo para o artigo: seleção de artigos, redação e validação final.

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